Ainda não foi desta vez

O dia amanheceu ensolarado naquela quinta-feira.

E como tem chovido neste começo de março.

Chove ao raiar do dia. Continua a chuvarada depois do meio dia. E a noite, como se não bastasse tanta chuva, relâmpagos, trovões, riscam do céu de norte a sul.

A vida de Zé Trovão não tem sido fácil. Apelido herdado do irmão. Dada a sua voz estridente. Que é ouvida a quilômetros de distância.

Zé nasceu e cresceu num lugar ermo e distante.

Herdou uma gleba de terras improdutivas e áridas.

Graças ao trabalho duro, desafiando a inclemência do tempo, Zé, pouco a pouco, foi transformando aquela rocinha num lugarzinho até que agradável.

Aos trinta anos já era possuidor de uma fazendola invejada pelos amigos.

Pródigo em fazer amizades Zé nunca desdenhou de um cabo de enxada.

Valente, persistente, acordava ao nascer da aurora. Antes da cinco já estava no curral. Lá o esperavam cerca de cinquenta vacas baldeiras. Que produziam quase quinhentos litros de leite frio. Que eram vendidos a um laticínio perto. Por um preço até que convidativo.

Zé enricou antes dos cinquenta. Amasiado com uma rapariga espertalhona. Que um dia, quando menos esperava, sumiu na braquiária. Deixando um rombo enorme na sua conta bancária.

Mesmo assim Zé Trovão não se abateu. Acordou, naquela madrugada de março, logo em seu começo, vítima de um estranho pressentimento.

Sonhou que as chuvas serenaram. Que de repente fez-se o sol.

No entanto, naquela hora madrugada, ao sair de casa, desabou uma tempestade de encher baldes até vazar.

Choveu como nunca havia chovido dantes. Tudo estava alagado.

A estrada intransitável impedia qualquer um de chegar ali.

Zé ficou isolado o resto do mês. Não havia como chegar àquele lugar.

Antes de o mês fechar os olhos acabaram os mantimentos. Faltava de tudo um pouco. Menos a esperança de um dia melhorar aos olhos do estoico Zé.

A cada manhã, ao acordar, Zé continuava na expectativa de a chuva passar.

Mas nada de as águas cessarem. O sol teimava em não sair de entre as nuvens cinzentas.

Naquele dia, era cinco de março, Zé, já desiludido com a situação aflitiva por que passava, levantou-se num ímpeto.

Ao abrir os olhos, sonolentos, pensou ter visto uma nesguinha de sol.

Foi mera ilusão de ótica. De repente continuou a chover. O céu tintou-se em cinza. E desabou uma tempestade enorme.

Era sábado. Naquele pedaço de chão apareceram, finalmente, alguns amigos do Zé.

Encontraram tudo alagado. Inclusive os sonhos de um dia a coisa melhorar.

Zé foi encontrado morto debaixo da cama. Coberto por uma camada densa de lama.

No seu epitáfio foi escrito: “ainda não foi desta vez. Quem sabe noutro dia”?

Até hoje, quando passo naquele lugar, ainda me lembro do amigo Zé Trovão.

Dizem que depois da tempestade vem a bonança.

Entretanto, para o valente Zé Trovão, ainda não foi desta vez.

Deixe uma resposta