Eram dois primos que viviam lado a lado.
O primeiro, calminho da silva, embora seu nome de batismo fosse Sebastião Teixeira do Sacramento, recebeu este apelido devido à calma que nele brotava como água da mina em dias de chuva mansa.
Já o segundo, Francisco de Oliveira, com justificado motivo foi epitetado de Agitado devido à ansiedade que o consumia.
Eram primos em segundo grau. As mães eram aparentadas. Amigas de longa data. Que viviam pertinho. A um tiro de espingarda uma da outra. Numa rocinha encantada, num lugar ermo e isolado.
Elas mal se frequentavam. Devido ao trabalho constante ficavam quase o tempo todo às turras com as tarefas do lar.
Tião era o encarregado de uma fazenda de criação de gado. Acordava ao nasceu do sol.
Dormia sem nenhum percalço. Acordava sempre de bom humor. Lavava o rosto na água fria do banheiro. E dormia sempre a mesma hora. Cansado das lidas diárias.
Até a idade que conta agora nunca precisou de remédio para dormir. Bem sabia das suas enormes responsabilidades. Sozinho cuidava de uma boiada enorme. Mais de dois mil bois pastavam sob seus olhares cuidadosos.
Já o primo Chico era o oposto do outro. Agitado, dormia pouco, e sempre acordava antes da hora prevista.
Ambos tinham a mesma idade.
Mas, devido às circunstancias da vida de cada um o primo Chico parecia ter o dobro da idade do primo.
Tião nunca precisou ir ao médico. Aos quarenta e cinco anos bem vividos aparentava menos de trinta.
Já o primo Chico Agitado, um ano mais velho, parecia ter dobrado os setenta. Cheio de rugas. Cabeleira branca. Mais parecia o pai do primo. Tais as feições que lhe desenhavam na face.
Era mês de fevereiro. E como chovia naquelas paragens. Chovia durante a noite. E repetia a chuvarada no decorrer do dia.
Naquela manhã de quarta-feira Tião acordou com água até o pescoço. Uma enchente acabou alagando tudo ao derredor.
Não se apoquentou. Acordou bem disposto. Tomou um cafezinho requentado na hora. E logo saiu de casa a ver como estava a boiada.
Lá pelas dez da manhã estava tudo na perfeita paz e harmonia. O gado alimentado. Pastejando bucolicamente num lugar a salvo da enchente.
Já o primo Chico descabelou-se prematuramente. Saiu de casa às carreiras. E logo afundou na lama escorregadia. Foi salvo do afogamento pelo primo Tião.
Mal teve tempo para agradecimentos. Sentiu no peito uma dor lancinante. Que o levou ao hospital.
Ali passou uma semana inteirinha recuperando-se de um infarto.
Já em casa, agitado como sempre, recebeu a visita do primo Tião.
O qual lhe recomendou calma. De nada adianta se preocupar com as coisas que acontecem na vida da gente. Elas veem e vão.
Chico Agitado viveu mais um ano. Conquanto o primo Tião ainda vive até hoje.
E acredito, piamente, que ele vai passar dos cem.
Daí fica o meu recado. De que adiantam as preocupações? A vida passa. A gente ultrapassa. E o que fica pra trás? Apenas os bons momentos vividos. E nada mais.