Foi-se o carnaval…

“As águas vão rolar. Garrafa cheia eu não quero ver sobrar. Eu passo a mão no saca-saca-saca-rolha, e bebo até me afogar”.

Já foi pra mim o tempo de carnaval. Daquela máscara negra nem quero me lembrar. E a infeliz Colombina, que deixou o apaixonado Pierrô perdido no salão, nem faço questão de recordar. Se iria beijar-te agora, não me leve a mal, aquilo sim, é que era carnaval.

A festa de hoje não me atrai. Prefiro me isolar no mato. E ficar perdido em minhas lembranças. De quando fui criança. E brincava nos bailes ingênuos da festa de momo, fazendo de conta que o palhaço ainda tinha perdidas ilusões.

As ilusões passaram. E a festa continua. E eu, já longe da infância, não mais percebo, mesmo de olhos fechados, como eram bons aqueles carnavais.

Parece que foi ontem que assisti, embasbacado, o que aconteceu a um amigo da roça.

Pedro amava festejar o carnaval. Deixava tudo de lado. As vacas que tanto amava. As galinhas que ciscavam no esterco do curral.

Acordava ao nascer da aurora. Antes das cinco já estava prontinho a sair de casa. Depois de um cafezinho magro. Acompanhado de uma broa de milho feita na véspera.

Pedro vivia só. Perdido na solidão escolhida por ele mesmo. Ele pensava que si bastava. Acostumado ao trabalho duro Pedro não sentia falta de nada.

Naquela manhã que antecedia o carnaval chovia a gotas polpudas. Do lado de fora da janela mal se via a luz do dia.

E, conforme combinação com um amigo, ambos iriam à cidade perto. De carona no caminhão leiteiro.

Acontece, imprevistos são imprevisíveis, como choveu a noite passada. Enxurradas desciam o morro. De repente formou-se um rio de lama. Que impedia qualquer tentativa de sair da sua roça.

Não houve como Pedro ir à cidade. Malogradas foram as tentativas. Por mais que insistisse nada dava certo. O caminhão leiteiro atolou-se no barro. E condução para ir a cidade foi pelos ares chuvosos.

Naquela manhã ensopada Pedro passou o dia inteiro em casa. Pelo radinho de pilha iludiu-se com aquelas marchinhas de carnaval.

Assim passaram-se os dias. Foram quatro dias inteiros de chuva constante.

O carnaval virou cinzas.  E nada de ver seu sonho realizado.

Passaram-se anos. O tempo mudou de repente.

Pedro envelheceu. Tornou-se um velho rabugento.

Ele, assim como eu, desgostou-se do carnaval.

Agora, pensando nos tempos de outrora, daquelas marchinhas tão lindas, Pedro vive de contar histórias. Dos velhos carnavais que passaram.

Foi-se o carnaval. Nas águas barrentas das chuvas de verão.

Por onde anda aquela máscara negra? Por quem chora o Pierrô? Por certo não foi por ninguém. Talvez por falta de amor.

 

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