Vou comprar um “alicoptero”

E como tem chovido por aquelas bandas. É chuva de fazer qualquer um perder o sono.

Um barro grudento se forma do lado de fora da casa. Goteiras inundam o quarto de dormir.

Na cozinha ancha, naquela manhã de fevereiro, precisamente no dia onze, durante a noite se formou uma verdadeira piscina. Foi ali que dona Zefa passou metade da madrugada.

Era hora de levantar. O que o fez num salto. O colchão, recém-comprado numa liquidação, mais parecia uma lagoa. De tanta água que se podia ver entre os lençóis.

Dona Zefa não era de regatear serviço. Sozinha ela dava conta de tocar uma pequena propriedade rurícola.

Alimentava duas dúzias de vacas leiteiras. Tratava de uma porcada faminta. E, não bastante tanto serviço ainda fazia faxina para um vizinho rico.

De vez em quando ia à cidade. Morava só. Até a idade que contava agora, quase sessenta anos, nunca se consorciou a nenhum homem. Diziam, nos arrabaldes, que dona Zefa não era afeita a machos. No que ela negava fazendo beicinho. Era arisca como ela só. Se era virgem somente a terra iria saber.

Naquela manhã chuvosa dona Zefa acordou de mal humor. Como fazer para sair de casa? E como ordenhar as vacas? Nas bandas do curral era uma barreira só.

Precisamente às oito horas o caminhão leiteiro recolheria o leite de dois dias. O tanque de expansão estava cheio pela boca. Era da produção de leite que vivia. A faxina mal dava para as compras do mês.

Naquela terça-feira de fevereiro a sitiante tinha de ir à cidade. Na despensa faltava quase tudo.

Via de regra dona Zefa pegava carona no caminhão leiteiro. Isso quando ele descia o morro. E pra subir somente puxado pelo trator.

Acontece, naquela manhã chuvosa, o tal caminhão não apareceu. Tudo indica que ele estava atolado num lamaçal qualquer.

O relógio marcava oito da manhã. Nenhum sinal de que a chuva iria cessar.

Mesmo assim, sem condução, sem a carona costumeira, dona Zefa acabou arriando o cavalo baio. Seu nome era Marreta.

Ainda bem que a cidade era perto. Menos de um tiro de espingarda de distância.

Uma vez desembarcada naquela praça principal dona Zefa amarrou o Marreta numa árvore copada.

E como chovia naquele dia escuro e cinzento. O trânsito não andava. Dona Zefa, desacostumada a cidade grande, nem teve tempo de pegar a lotação. Foi a pé mesmo.

Parou num supermercado. Era enchente pra todo lado. Os carros, atolados na água suja, davam perda total.

Ainda bem que dona Zefa nunca teve um carro.  E não lhe fazia falta.

Naquele dia rusguento, de muita chuva e pouco sol, dona Zefa passou metade do dia entregue às compras. Já era tarde quando decidiu voltar ao seu pedaço de chão.

Ônibus não circulavam. Taxis passavam lotados. E dona Zefa, cheia de compras, não tinha como voltar a sua rocinha encantada.

Já tarde da noite, ainda com água pelas canelas, dona Zefa, num esforço hercúleo, tentou parar um taxi.

Foi quando aquela condução acabou por jogar água barrenta que a fez molhada até os ossos.

Quando dona Zefa aconchegou-se num bar, e pediu um cafezinho para esquentar, no alto passou uma coisa avoando. Não era um urubu. E nenhum pássaro conhecido.

Segundo informação de terceiros aquilo era um helicóptero. Coisa jamais vista pela dona Zefa.

Enfim ela conseguiu voltar a sua rocinha querida. Ensopada, exausta, mal conseguia se manter de pé.

Alimentou o cavalo Marreta. Deixou o cocho cheio de trato a dar às vacas.

E dormiu sonhando um sonho bom.

Na hora de acordar a chuva serenou. No alto um sol tímido brilhava a olhos vistos.

Foi aí que dona Zefa decidiu. E prometeu, a um vizinho de cerca, que, na próxima vez que fosse a cidade compraria um “alicoptero”.

Não sei se assim o fez. Mas, toda vez que passo por lá vejo uma penca de urubus aquecendo-se ao sol. Talvez seja a frota de “alicopteros” que dona Zefa comprou.

Esperando um dia avoar.

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