Até que enfim …

Como tem chovido nos arrabaldes.

Chove durante a noite. Amanhece chovendo no decorrer do dia.

Chico da Dona Mariana é um otimista inveterado. Pra ele tudo vai bem. Apesar de na maioria das vezes acontecer o contrário.

Quando a melhor vaca do curral amanhece com as tetas inflamadas, ele, ao invés de se descabelar, logo cuida de as tetas cuidar.

Quando o cavalo que puxa charrete amanhece sumido no pasto, logo vem ele com o cabresto e o laço.

Para Chico não tem tempo ruim. Faça chuva ou descarregue o sol ele acorda sempre de bom humor.

Neste ano, que recém começou, o velho Chico, amanheceu, naquela madrugada de sete de fevereiro, um ano mais velho. Completava, naquele dia bem cedo, exatos setenta anos de vida bem vivida.

Até então nunca teve de procurar um doutor. Se o fez nem se lembra de quando foi.

Trabalhador contumaz, enxadachim de primeira, era pau pra toda obra. De vez em quando o via como servente de pedreiro.

Chico acordava ao cantar do galo. Quando o galo não cantava servia o cacarejar das galinhas.

Antes das cinco se punha de pé. Tomava um cafezinho magro acompanhado de uma broa de milho feita na tarde de ontem. Dona Mariana, esposa e companheira, era quem o ajudava na lida com as vacas. Era a responsável pela limpeza da sala de ordenha. Tudo rescendia a higiene. Eram tidos pela vizinhança como caprichosos e respeitáveis trabalhadores rurais.

Quando o preço do leite abaixava Chico mudava de fornecedor. Quando o visitei, naquela manhã de sábado, ele acabava de receber o caminhão leiteiro. Era oriundo de uma cooperativa mais perto de onde morava. Que prometia pagar por um litro de leite a importância de um real e cinquenta centavos.

Quando cheguei a sua propriedade havia chovido a cântaros durante a noite passada. Quase atolei no lamaçal naquela subidinha do morro que levava ao curral.

Encontrei o velho Chico com seu indefectível bom humor. Ele já havia ordenhado aquelas duas dúzias de vacas. E se preparava para alimentar a boiada.

Entramos casa adentro. Era antes das sete horas da manhã.

Dona Mariana já estava com um cafezinho quentinho fumegando na trempe do fogão a lenha. Biscoitos de polvilho recém-saídos do forno, bolinhos de chuva feitos na hora, um queijo fresco nos esperavam numa mesa de azulejos branquinhos.

Passamos quase hora e meia numa prosa gostosa. Com sabor de amizade genuína.

Colocamos a prosa em dia.

Proseamos sobre o tempo. Sobre a chuva incessante que tem caído há mais de dois meses inteiros. Sobre a pastaria verde. Sobre a roça de milho em ponto de ser ensilada. Sobre as últimas crias de suas novilhas que enchiam o balde.

Durante a nossa prosa amistosa percebi, do lado de fora da cozinha, o sol voltar a brilhar. Novamente a chuva serenava.

A nossa despedida, já era quase dez da manhã, e tinha de voltar à cidade, ao apertar a mão do amigo, e desejar-lhe toda a felicidade do mundo, dele ouvi a seguinte admoestação: “até que enfim o sol se fez. Se bem que a chuva faz falta. Mas, se quer saber, nada como o casamento do sol com a chuva. Depois vem o arco-íris. E nada melhor que observar, na linha do horizonte, aquelas luzes multicores, a enfeitarem o céu que de repente se faz azul”.

Ao partir, e deixar aquele casal maravilhoso, feliz da vida na sua vidinha singela, senti dentro do peito a mesma sensação de paz e conforto. Até que enfim, pensei cá comigo. Nada como um dia depois do outro.

Quase sempre depois da tempestade o sol brilha forte.

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