Percalços

Quem ainda não se viu em dificuldades, ao acordar, deixou a cama em plena madrugada, e teve, ao sair de casa, a primeira dificuldade ao ganhar a rua?

Nem todos os dias são iguais. Nuns, a gente acorda com o pé direito. Lava o rosto contrafeito. Escova os dentes sem que a água jorre da torneira. E, quando vai tomar banho o restinho de água não é o bastante para enxaguar o corpo já alquebrado pelos anos.

Não bastante tantos atropelos, quando tenta fazer o café percebe que faltou um pequeno detalhe.  O gás não foi trocado. E a chama do fogão continua apagada.

Não satisfeito com tantas contrariedades, assim que saímos à rua, cai uma aguaceira danada.  E o tal guarda-chuva não abriu como deveria. De tão velho que estava.

Molhado até os ossos, resfriado, temos ir ao trabalho. Ao esperar a condução, que nos levaria ao serviço, a mesma, dada a chuva que caiu desde a noite passada, não passa na hora devida.

E temos de ir a pé. Um longo caminho nos aguarda.

Faltando alguns metros apenas, quase na porta da fábrica, eis que apareceu um gatuno. O tal larapiozinho pé –de- chinelo, passa a mão em nosso bolso semivazio, e nos leva a carteira com todos os documentos.

Mesmo assim, sujeito a tantas contrariedades, começamos a lida do dia.

Neste exato minuto aparece o gerente da fábrica. Que nos repreende duramente. Com uma sonora ameaça de nos colocar no olho da rua.

Passam as horas. Termina aquele dia malogrado.

O relógio de parede assinala dezoito horas. É hora de bater o ponto. De sair daquela empresa.

Despedimo-nos dos colegas. Sempre apressados.

Ao chegar a casa mais uma surpresa nos aguarda. Esquecemos a chave da porta. Em algum lugar ela deveria estar. É quando nos lembramos de que ela estava na carteira afanada pelo gatuno.

Como entrar em casa? Foi quando me lembrei de um chaveiro amigo. Interpelei-o pelo celular.

Zé da Chave não atendeu ao meu chamado. Já era tarde da noite. O pobre deveria estar dormindo.

Não tive alternativa senão dormir debaixo de um viaduto. E como choveu durante a noite.

Acordei todo ensopado. Tinha frio. Estava resfriado.

Voltei a minha casa de morada. Consegui, com a ajuda de um vizinho, abrir a porta com muitas dificuldades.

Lá dentro estava tudo molhado. Havia esquecido a janela aberta. Por onde a chuva entrou alagando tudo.

Perdi não apenas a mobília novinha. Assim como a televisão. A cama onde dormia boiava na enchente. Todas as minhas roupas cheiravam a mofo. Meus pertences foram por água abaixo. Literalmente.

Afinal seria mais um dia que teria de enfrentar. De volta à fábrica recebi o bilhete vermelho. Fui despedido por injusta causa.

De volta a casa, a procura de um novo emprego, passei mais uma noite insone.

Mais um desempregado neste país dos contrastes. Onde a maioria passa fome. E outros, infelizes, sem perspectiva de conseguir trabalho, continuam nesta vidinha amargurada.

Sujeitos a toda sorte de percalços.

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