Já passei pela meninice peralta. A mocidade se vai ao longe. Adulto me tornei.
Criança um dia fui. Embora ainda me sinta menino, quando brinco com meus netinhos, lindos como um dia fui.
Já hoje, olhando pra trás, percebo, a cada dia que passa, ao olhar em direção ao espelho, imprevisível confidente, que aquela criança que um dia fui esboroou-se graças à inclemência do tempo.
Ah!, se eu pudesse frear o tempo. Ter controle sobre os ponteiros dos relógios. Impediria sua marcha lépida. Se possível fosse retardaria aqueles ponteirinhos velozes. E os faria ir em direção atrás. Até quando era apenas uma criança.
Nada contra o envelhecimento. Envelhecer com qualidade de vida, sem que as inoportunas enfermidades tomassem conta da gente, seria tão bom como me sinto agora. Neste momento mágico quando vivo.
Ainda longe da aposentadoria trabalho nesta rotina que por vezes me aborrece.
Confesso que fazer tudo sempre igual não é tarefa da qual me vanglorie.
Daí a tentativa de acordar sempre de bom humor. Embora não seja fácil. Por vezes a melancolia toma conta do meu eu. E, na maior parte das vezes a felicidade instala-se dentro de mim.
Nesta fase da minha existência já conquistei tudo que desejava. Família criada. Netos em crescimento.
Não tenho a pretensão de ver meus três netinhos formados. Quando isso acontecer já estarei do outro lado da vida. Espero que minha partida seja na hora exata. Sem sofrimento, se possível for que seja durante o sono. Ainda consciente do que fui. Não atado a um leito de hospital. Sem poder manifestar o meu desejo de partir.
Nesta fase da minha vida alegro-me com coisas singelas. Não mais estou afeito a vaidades mundanas. Longe de mim enfeitar-me com coisas sem importância.
Agora, já passada a maior parte da minha existência, ainda penso existir por muitos anos mais. Considero-me jovem. Mesmo aos setentanos.
A senilitude é cheia de virtudes e prerrogativas. Poder entrar na fila sem esperar muito. Andar de ônibus graciosamente. Pagar meia entrada nos cinemas. Receber uma aposentadoria que mal dá para comprar medicamentos.
Ainda longe da aposentadoria espero continuar nesta vida por anos e anos a fio. Tenho saúde a emprestar aos outros. A clarividência me permite lucubrar sobre todos os assuntos que permeiam os tempos de agora.
Nesta altura da minha vida bem sei que já passei da metade do tempo corrido. E ainda corro todos os dias ao cair da tarde.
Hoje amanheceu um dia chuvoso. Um solzinho tímido tenta sair de dentro das nuvens cinzentas.
E como choveu durante a noite. Fevereiro tem sido pródigo em chuva. Como foi janeiro.
Hoje acordei de bem com a vida. A mesma vida que tem me presenteado sempre com coisas boas.
As ruins ignoro. Embora saiba que a vida se alterna com bons e maus momentos tento viver sobreviver apenas entre os melhores.
Nesta fase da minha vida encontro-me numa encruzilhada. Se vou, se volto, se sigo adiante.
Prefiro ir em frente. Antes que aconteça um imprevisto vivo a vida em sua intensidade plena.
Confesso que me encontro em meu melhor momento.
Se melhorar estraga…