Fazendo as contas

Nunca fui simpático aos numerais.

A eles prefiro as letras. Quando o assunto é contas deixo ao encargo de minha mulher. Ela sim. Sabe como ninguém multiplicar, dividir, somar. Quanto a diminuir, isso sim. É o que tenho feito durante a minha vida inteira. Pois jamais tive pendor para os negócios. Naquela rocinha que tanto amo tenho levava cada manta…

De fazer qualquer sujeito ladino rir de mim.

Um dia, faz alguns anos apenas, fiz uma catira com um vizinho de cerca. Seu nome era Geraldo da Dona Nega. Por uma vaca em final de carreira dei uma novilha novinha. Que um dia depois pariu uma bezerrinha linda. A tal vaca morreu dois dias depois. E não tive como me desfazer do prejuízo.

Continuei vida afora enrolado com os números. Até hoje, já considerado idoso, nada vaidoso, continuo do mesmo jeito. Quando o assunto é contas faço de conta que não é comigo. E deixo ao encargo daquela mesma pessoinha linda, que mais parece minha filha, no entanto trata-se da minha adorável companheira.

Fazendo as contas, até a presente data, dia três de janeiro de dois mil e vinte, nova década, faz exatos vinte anos que meu pai nos deixou. Ainda tenho o seu retrato perto de onde escrevo.

Já minha saudosa mãe veio a falecer aos oitenta e três anos. Deixando atrás um rastro de amor e saudade imensa.

Faz inexatos vinte anos que comecei a escrever. Foi no dia que meu pai veio a falecer. A primeira crônica que saiu de minha lavra teve o seguinte título: “Réquiem a um pai sem limites”. A seguir não parei mais.

Por detrás de mim contabilizo dezoito exemplares de livros. Todos de minha autoria. Dois deles são coletâneas. As crônicas são minhas meninas dos olhos.

Fazendo as contas, recontando tudo, creio que até no dia de hoje tenho arquivados no meu computador mais de dez mil textos.

Caso fosse inseri-los em livros, cada um com duzentas crônicas, deixo a vocês a incumbência nada fácil de publicar tantos volumes. O difícil será comercializá-los todos. Já que em nosso pais a leitura ainda não está incorporada ao nosso costume.

Fazendo as contas, embora não seja afeito aos numerais, até no dia de hoje conto com setenta anos. Espero continuar a fazer as contas por muitos anos mais.

Conto as horas. Vejo os minutos passarem. Os dias passam e eu passarinho.

Hoje é dia três de janeiro.  Amanhã será outro dia.

Até quando continuarei fazendo contas?

Espero, com as esperanças renovadas, por muitos anos mais.

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