Já estou me acostumando

Bem cedo, pela manhã, antes das seis, aqui estou.

Antes dormia até quando a manhã terminasse. Quando abria os olhos já era quase meio dia.

Uma vez a mocidade se despedindo, a idade cavalgando-me as costelas, quem sou eu para ficar na cama até tarde?

Dizem que velho dorme pouco. Em verdade vos digo que assim acontece.  A explicação para tal fato que encontro é que: uma vez a idade chega, para aproveitar ao máximo o tempo que nos resta, passar a noite inteira dormindo é um enorme desperdício. Devemos aproveitar a luz do dia. Já que a escuridão da noite nada nos acrescenta.

Em criança a luz do sol não incomodava as minhas retinas. Já hoje, no dobrar da serra alta, prefiro abaixar as persianas, para a que a luminosidade não me ofusque o discernimento.

Antes não me importava com as admoestações que vinham dos meus pais. Principalmente quando o castigo era merecido.

Já hoje, quando me puxam a orelha, respondo, contrariado: “por favor, não impliquem comigo. Já passei da idade de me chamarem a atenção”.

Os tempos mudaram. Eu mudei. Não apenas de idade mas simplesmente passei a identificar melhor o certo e o errado. Muitas vezes me equivoco. Mas aprendi que reconhecer o logro é uma virtude. Persistir nele um grande erro. Daí a minha vontade de pensar antes para não incorrer no mesmo senão.

Neste mês de janeiro faz um ano inteiro que mudamos de presidente.

Da mesma forma que estava acostumado aos desmandos administrativos passei a acreditar de novo em nosso país.

Já estou me acostumando aos novos rumos da nação. A corrupção parece que tem seus dias contados. Embora um ou outro caso isolado nos faça pensar que as coisas não mudaram.

Acostumei-me aos destemperos verbais do novo presidente. Aos seus arroubos de impaciência. Até mesmo as suas falas sem papas na língua.

Já estou me acostumando a sua incultura. Quando ele diz que os livros são um amontoado de palavras. Que pouco dizem. Por vezes não dizem nada.

Já estou me acostumando com sua loquacidade destemperada. Até mesmo quando ele diz aos interlocutores que a tal rede televisa é tendenciosa e mal informada.

Já me acostumei as suas entrevistas pela televisão. Sinto nelas um grande desejo de consertar o país. Colocá-lo no rumo certo. Como se isso fosse fácil.

Já me acostumei quando ele diz que o país está mudando. E concordo com seus dizeres. Embora muita gente tente fazer oposição.

Estou me acostumando ao seu jeito de ditador. Embora saiba que a ditadura foi sepultada há tempos atrás e não tem volta.

Já estou me acostumando as suas falas intempestivas. A oposição que lhe faz a mídia. Mas nele acredito. Embora a descrença ainda predomine em nossa nação.

Antes me acostumava a acordar tarde nas manhãs. Agora, já que a idade chegou, acordo ao nascer do dia.

Que este país, que amo tanto, encontre em verdade seu rumo.

Já me acostumei ao nosso presidente. Mesmo sabendo dos seus defeitos nele hipoteco a minha confiança. Na certeza de dias melhores para todos nós, brasileiros.

 

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