Novo ano se inicia.
Esperanças se renovam.
Afinal foram tantos anos na mesma rotina.
Nascer, crescer, tornar-se adulto, envelhecer, vendo a saúde ir embora.
Hoje conto com setenta anos. A mocidade foi-se como a chuva que caiu durante a noite.
Já não tenho mais vinte anos. Ainda mais distante de quando era menino.
No dia de hoje, dois de janeiro, acordei a mesma hora de sempre. Abri a janela do meu quarto. E observei, olhos sonolentos, o sol se abrir ainda tímido.
Deixei o apartamento pensando no que fazer neste dia. Primeiro dos muitos que ainda terei pela frente. A cidade ainda está acordando de um feriado. Poucas pessoas se veem pelas ruas.
Lojas vazias, comércio ainda de portas cerradas, bancos se abrindo, pessoas se preparam para um novo ano. Que em verdade começa na semana vindoura.
Ainda me lembro do começo da minha existência. Eu, ainda menino, brincava naquela rua que se deixa ver a mão esquerda. Foi ali que cresci. Foi naquela casa de janelas fechadas que ensaiei meus primeiros passos inseguros. Foram meus pais que me ampararam. Foram eles que me ensinaram tudo que aprendi até nos dias de hoje.
Não posso me esquecer das primeiras professoras. Foram elas que me ensinaram as primeiras letras, os primeiros números, as primeiras lições na longínqua mocidade. Foram elas que me alertaram dos perigos que iria enfrentar. No entando foi a vida que me ensinou o caminho que mais tarde iria trilhar.
Foram tantos os começos e recomeços por que passei.
Comecei a caminhar ainda menino. Quantas quedas aconteceram. E quantas vezes me levantei.
Já hoje, vendo a mocidade se esvair, a velhice me dizer que em breve vou desaparecer, ainda tento recomeçar. Tudo de novo. Como se a criança que ainda mora dentro de mim ainda existisse. Embora sabendo que tudo isso não passa de um sonho bom. E como é bom sonhar.
Um novo ano tem começo. Dias virão. Horas se seguirão.
Espero, dentro da minha existência, ainda viver por muitos anos mais.
Com a mesma clarividência de agora. Com a mesma saúde de sempre. Com a mesma disposição que me assalta todas as manhãs.
Hoje é o segundo dia do ano. Outros dias virão. Outras horas passarão.
Resta um ano inteiro para viver outro recomeço. Dos tantos que ainda virão.
Agora, quase sete e meia da manhã, o prédio ainda está vazio. Não tenho pressa de recomeçar. Afinal já vivi o bastante para compreender que viver a vida com qualidade deve ser curtida com se fosse o primeiro instante. . Das tantos que ainda terei pela frente.
Hoje recomecei outro começo de tantos recomeços. Quantos mais serão? Não desejo saber. Apenas viver. Muitos anos mais.