Gostaria de ter feito mais

Dois mil e dezenove deixou a desejar.

Logo mais o ano  se despede. Deixando no seu rastro um ar de desalento.

Foram trezentos e sessenta e cinco dias de trabalho. Horas intermináveis de angústia e sofrimento para muitos pais de família. Desempregados, morando em lugares isolados. Longe do conforto a que tinham direito.

Amanhã o ano se despede. Logo mais, ao apagar das luzes de mais um ano, fogos iluminarão o céu da noite. Tomara estes mesmos fogos de artifício tragam a todos nós perspectivas de vida nova. É o que precisamos.

Que o Brasil encontre seu rumo. Que a crise se torne mais uma página virada em nossa história. Que o desemprego se atenue. Que a maioria de nossa gente encontre seu lugar ao sol.

Neste ano que amanhã fecha os olhos gostaria de ter feito mais.

Confesso ter tido a oportunidade de ajudar dentro das minhas possibilidades. Não o fiz por omissão. E sim por não poder resolver nem uma insignificante parcela das mazelas que me procuraram nas unidades de saúde pública. Não culpem os médicos da falta de quase tudo. Somos parte de um sistema injusto. Que privilegia os mais bem aquinhoados em detrimento daqueles que realmente precisam de um tratamento digno.

Gostaria de ter feito mais pelo meu próximo. Quantos esmolantes estenderam-me a mão. E eu, dentro da pressa que me consome, não tive tempo de parar. E segui adiante movido pela compulsão em não chegar atrasado a algum lugar onde deveria estar minutos antes.

Acordo cedo. Desloco-me apressado sempre em busca domesticar a ansiedade que me consome. Torno-me um papelzinho levado por um redemoinho. Que avoa sem poder aquietar-me junto ao chão.

Gostaria de ter feito mais por aqueles meninos abandonados, perdidos neste mundo esquecido pelas famílias que não possuem.

Entretanto aqui estou. Devaneando sobre minha incapacidade de ajudar a outrem.

Neste ano que agora finda.

Gostaria de ter feito mais pelos pacientes que me procuraram. Confesso não ter sido capaz de oferecer-lhes um tratamento condizente ao seu sofrimento.  Não foi por culpa minha. E sim pelos avanços da medicina que não pude acompanhar de perto.

Confesso que estou ficando velho. Não pela idade que hoje me contempla. E sim pelo cansaço que agora me domina.

E como apreciaria fazer mais pelos que dormem ao relento. Pena que meu teto não cabe tantas pessoas que porventura dormem pelas ruas.

E pelas crianças desamparadas? As que esmolam nos semáforos? Nada posso fazer a não ser desejar-lhes melhor sorte.

E pelos cães que perambulam pelas ruas? São tantos que nem consigo identificá-los. Conquanto outros têm tudo que precisam. E até mais que em verdade necessitam.

Como gostaria que este mundo fosse menos díspare. Que a pobreza não fosse tão aviltante.

E como apreciaria, que no ano próximo, todos tivessem a mesma chance de conquistar seus sonhos. Já que eu sonho tanto. Mesmo de olhos abertos.

Estamos perto de adentrar um ano novo. Que ele seja mais fraterno. Menos hostil. Menos cruel.

Que a violência seja contida. Que a saúde seja em verdade oferecida a todos sem distinção de raça ou camada social. Que a pobreza seja em verdade erradicada de nosso país continental.

Que as balas perdidas não encontrem seu alvo. Que a felicidade inunde os lares. Com seu hálito cheirando a madressilva.

Neste quase ocaso. De um ano que agoniza. Que ele feche os olhos para acordar no ano vindouro mais feliz ainda.

Confesso que tenho feito pouco. Mas gostaria de ter feito muito mais…

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