Manhã de primavera

Hoje, trinta do mês de outubro, amanheceu um dia esplendidamente maravilhoso.

O sol brilha forte. O calor já se manifesta em intensidade máxima. Imagine como vai ser no decorrer do dia. Mais calor, nenhum sinal de chuva no alto.

Foi neste cenário iluminado que acordou disposto o tal Zé da Enxada.

Era antes das cinco da manhã.

Zé olhou pela janela e se surpreendeu com uma lufada de ar quente. Mal podia abrir os olhos devido à luz que adentrava naquele quartinho escuro. Maritacas grasnavam estridentes nos galhos das jabuticabeiras. As frutinhas pretinhas já estavam maduras.

Era hora de procurar as vacas que deviam estar pastejando naquela manhã de primavera.

Muitas delas ainda não haviam chegado ao curral.

Zé tomou um cafezinho requentado. Antes que o relógio de cabeceira apontasse cinco da manhã lá estava ele prontinho às tarefas do dia.

Zé era um enxadachim de primeira. Jamais desdenhou do trabalho.

Acostumado à lida no campo nunca regateou do trabalho. Aos quase sessenta anos nunca precisou consultar um médico. Se o fez não se lembra de quando. Em criança talvez a mãe o tenha levado ao pediatra para tratar de uma dorzinha de barriga. Nada que um vermífugo não desse conta de matar as lombrigas que lhe atazanavam o intestino.

Naquela manhã de primavera Zé da Enxada acordou com um estranho pressentimento. Sonhou que iria chover. E como as chuvas eram esperadas naquele meio de primavera.

Afinal era tempo de sulcar a terra. Adubá-la a contento. Para depois semear as sementinhas de milho que um dia iriam crescer. Em alguns meses uma linda roça de milho seria o alimento das vacas. As grandes responsáveis pela renda do Zé. Que vivia da produção leiteira. Feliz da vida. Zé não desejava outra vida. Caso tivesse de se mudar pra cidade seria a sua perdição. Ali era o seu lugar. Onde gostaria de ser enterrado. Debaixo do pé de jabuticaba. Num dia de chuva intensa.

Naquela manhã de primavera o céu se transformou de repente. Nuvens negras escureciam o alto. Na parte da tarde despencou uma aguaceira de escorrer enxurrada. A terra se tornou barrenta. As águas do riacho transbordaram.

O sonho do Zé se tornou verdade. As tão sonhadas chuvas, previamente anunciadas pela meteorologia, acabaram caindo em saraivadas auspiciosas.

Em pouco tempo a roça de milho cresceu. As espigas, perfiladas em cachos, dependuradas nos pezinhos de milho, foram pouco a pouco derriçadas.

Naquela manhã de primavera Zé acordou feliz da vida. Naquela dia lindo, depois de uma noite encantadora, quando a chuva chegou, de repente, o céu se fez escuro.

Em alguns dias apenas Zé completou sessenta anos. Não houve festas. Nem celebrações.

Dentro da sua simplicidade campesina Zé era feliz e bem o sabia.

Naquela linda manhã de primavera, ao cair da noite, Zé fechou os olhos, para sempre. Morreu com um sorriso na face.

E foi sepultado, conforme sua vontade, debaixo do pé de jabuticaba. Sendo velado pelas maritacas gritadeiras.

Naquela linda manhã de primavera passei por ali. Pensei ter escutado a voz do Zé.

Era uma vozinha doce. Da doçura de uma jabuticaba madura.

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