Chiquinho acordou, naquela manhã de primavera, com um estranho pressentimento.
Estava um dia lindo. Céu azul, um calor de verão fazia crer que no decorrer do dia talvez chovesse na parte da tarde.
Mas nenhuma nuvem se mostrava no alto. Nenhum indício de chuva.
Era um começo de primavera seco. Como a gente da roça precisava de chuva.
Outubro estava em seus estertores finais. Era tempo de arar a terra. Nela semear sementes. E, dentro de algumas semanas ver da terra brotar pezinhos de milho.
Era tudo que Chiquinho desejava. Que a chuva despencasse do alto. Em gotas miúdas. E nada de tempestades a destruir tudo que via pela frente.
Naquela manhã, bem cedo, Chiquinho abriu a janela, olhou pro céu, e aquela azulice incomodou-lhe os olhinhos claros.
Foi preciso ir a pia do banheiro para lavar os olhos. Só depois conseguiu enxergar a luminosidade do dia.
Ao sair de casa, naquela rocinha tosca, o relógio mostrava exatas cinco horas da madrugada.
Lá fora um bando de maritacas grasnavam famintas. Era tempo de jabuticaba.
Chiquinho encaminhou-se ao curral. Duas dúzias de vacas baldeiras já o esperavam para a primeira ordenha. Famintas, berravam de saudade dos seus bezerros recém nascidos.
Uma dezena deles já estavam ávidos pela primeira mamada.
Antes das sete todas as vacas há haviam sido ordenhadas. Um leite quentinho aguardava a chegada do caminhão leiteiro. Que descia a ladeira em busca da produção de dois dias seguidos. Quando faltava luz corria-se o risco de a produção azedar.
Naquela manhã de primavera não havia sinal de chuva. O céu azul, o sol despontando no alto, nada que indicasse a presença de chuva.
E como ela era necessária na vida do campo. Quando não caía no tempo certo tudo iria por água abaixo.
Naquele ano não choveu a contento. Novembro chegou causando a todos um novo desalento.
A roça de milho não vingou. A vacada faminta teve de ser vendida para pagar as dívidas com o banco.
A vida na roça não era fácil. Mesmo assim Chiquinho perseverava em sua atividade pouco lucrativa.
No ano seguinte repetiu-se a ladainha. A chuva não veio. A roça de milho não deu coisa que prestasse. O preço do leite despencou.
A desesperança do Chiquinho mais uma vez causou-lhe um enorme constrangimento.
Entrou outro ano. Mais desenganos.
E até que um dia, não se sabe precisar quando foi, Chiquinho decidiu passar adiante a sua rocinha prejuizenta. Foi morar na cidade. Onde passou tempos angustiado. Pois aquilo não era o que desejava da sua vidinha singela. E como ele amava os bichos. Principalmente os canarinhos da terra ciscando o esterco do curral.
Numa manhã de primavera, quando acordou a mesma hora de sempre, Chiquinho abriu a janela. Lá fora nuvens escuras tapavam a boca do sol. De repente caiu uma aguaceira danada.
Mas já era tarde. A roça que tanto amava não era mais sua.
Foi, naquela manhã de outubro, quando Chiquinho acordou, permaneceu na cama pensando no passado. Ele era feliz e bem o sabia. Agora, vivendo na cidade, tornou-se mais uma vítima de um grande desalento.