O dia de finados se aproxima. Dia de reverenciar os mortos.
Quantos entes queridos repousam naquele campo santo.
De vez em quando faço-lhes uma visita. Principalmente naquele túmulo onde repousam meus pais. Ali permaneço durante alguns minutos. Lembro-me das suas companhias que me trazem tantas saudades. Percebo, durante aqueles instantes breves, lágrimas a escorrerem pelo canto dos meus olhos. No dia de reverenciar os mortos deposito naquela lápide cinza alguns vasos de flores. Bem sei que elas irão murchar sob o sol forte do mês de novembro.
Mesmo assim passo alguns minutos pranteando-lhes a memória. O quanto meus pais foram importantes na minha história.
Hoje acordei sob a luz da manhã. Chovera durante a noite. Agora, antes da seis, salto da cama. Tomo uma ducha morna. Para despertar de vez.
Andei pensando, durante esta semana que antecede o dia de finados, no dia da minha partida.
Quando isso irá acontecer? Se me fosse permitido escolher o dia da minha despedida por certo não seria num dia como o de hoje. Manhã de céu azul. Uma brisa fresca assopra minha face nesta hora madrugada. O prédio ainda está vazio. As ruas semidesertas.
As manhãs, bem cedo, são para mim a melhor hora do dia. É quando escrevo sob a inspiração que me assalta sem armas em punho.
Antes das oito aqui estou. Observando o entorno. Olhando, a mão esquerda, parte do meu passado. Aquela rua tantas vezes cultuada me olha com olhos de pura nostalgia.
Se pudesse escolher o dia quando irei morrer por certo não seria num dia como o de hoje. Seria durante a noite. Já que estou de olhos fechados não sentiria o desprazer de me despedir da vida. Simplesmente iria deixar de existir.
Alguém me fecharia os olhos. Talvez muitos sentiriam a minha falta. Como eu mesmo sinto a dos meus pais.
Neste dia ensolarado, docemente iluminado, com certeza não seria o dia ideal para deixar de viver. Gostaria, se me fosse permitido decidir, o dia e hora da minha morte, que tal num final de fevereiro? Imprecisamente num trinta e um. Dia imaginário, já que fevereiro não se estende além dos vinte e nove.
Caso me fosse permitido eleger quando iria me despedir dos amigos não seria nunca num dia como este. Nem no dia do meu aniversário. Próximo às festas natalinas.
Já que não posso eleger o dia exato quando irei desaparecer, que tal num dia cinzento. Escuro, sombrio.
Certamente não seria num dia como o de hoje. Alegre, de nuvens claras emoldurando o horizonte.
Infelizmente tenho a certeza que não poderei, jamais, eleger o dia da minha morte.
Este lúgubre dia penso ainda não foi demarcado. Tomara ainda longe dos meus olhos. E ainda mais distante deste dia lindo. Quase finados. Dia de lembrar os mortos. De reverenciar-lhes a memória. De cultuar-lhes a ausência. De sentir saudades.
Quando irei desaparecer? Prefiro ficar na ignorância. De continuar a viver a vida em sua intensidade máxima. Até quando Deus permitir. E meus pais me chamarem para junto de si.