O que me reserva o amanhã?

Hoje, nesta manhã do dia vinte e oito de outubro, dia dedicado ao funcionário público, rendo a todos eles minha justa homenagem.

Enquadro-me nesta categoria.

Podem dizer em nosso desfavor que somos um tanto quanto omissos no atendimento.

Que dedicamos parte do nosso tempo em favor daqueles que precisam de qualquer documento. Chegamos pontualmente ao trabalho. Muitas vezes somos incompreendidos na nossa lida diária. Muitos concordam com a gente que não é fácil lidar com o ser humano.

Muitos sofrem o amargor do desemprego. Passam tempos difíceis a procura do seu lugar ao sol. E muitas vezes, quando mais precisam, recebem um não de quem menos esperam.

Eu mesmo estou prestes a me aposentar. Afinal foram anos a fio naquela função a mim destinada. Tento, por vezes não consigo, atenuar o sofrimento daqueles que não têm a sorte de desfrutar de um plano de saúde que lhes permita viver condignamente.

No ano vindouro completo setenta anos de idade. Muitos deles dedicado a minha função de médico do serviço público.

Confesso que percebo meu justo provento. Não se trata de uma soma irrisória. No entanto, quando ali passo horas a ouvir os queixumes dos pacientes, infelizmente confesso. Não lhes posso dar mais que me é permitido. O sistema é injusto. Privilegia os mais bem aquinhoados. E quem mais precisa de um atendimento condigno tem de passar tempos difíceis a espera da hora quando alguém os convocar ao tratamento que tanto precisam. E pode ser tarde demais.

O que me reserva o porvir? Assentar-me a um banco da praça. Assistir impassível o tempo passar?

Não é isso que desejo pra mim. Aposentar-me por completo, jamais.

Espero, enquanto a saúde me bafejar, ser útil a quem me procura. Aqui estarei sempre pronto a ajudar.

Hoje conto com exatos sessenta e nove anos de vida. Amanhã, de hoje a dois meses, estarei setentando.

Quantos anos mais viverei? E como estarei depois de depois de outro amanhã?

Não importa. O que conta é como me sinto agora. Pleno, tirocínio perfeito, pernas boas para caminhar.

Ainda sou capaz de acompanhar meus netos. E outros que a vida porventura quiser me presentear.

Por vezes me pergunto: “o que me reserva o amanhã”?

E outros amanhãs?

No ano vindouro estarei parcialmente aposentado. Do serviço público. Da medicina jamais.

Enquanto a saúde me brindar, enquanto meu desejo perdurar, estarei aqui para brindar a vida.

E como ela é bela. Risonha, transparente e límpida.

O que me reserva o futuro? Não tenho a intenção de vaticinar. Espero simplesmente viver. Uma vida com qualidade. É o desejo também a vocês

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