Ao acordar sempre conto mais um dia na minha folha corrida.
E como tenho anos a inserir aos meus desenganos.
Ontem tinha vinte anos. Engano meu. Não foi bem ontem. Faz cinquenta anos. Hoje conto com quase setenta. Faltam alguns meses apenas para setentar.
E ainda não penso em me aposentar. Meu pai dizia, com sua sabedoria irrestrita: “o ócio é o começo do fim”. E quando seria o meu fim? Quantos anos mais viverei? Quantos dias contarei nos dedos. Ainda ágeis, espertos, como meu cérebro irrequieto que não para de pensar.
Quantas horas ainda me esperam? Quanta alegria desfrutarei. Quantos netos ainda terei. Hoje são três. E eles todos são um motivo a mais para continuar por aqui. Trabalhando ainda. Acordando cedo. Escrevendo o que minha inspiração dita. Indo de um lugar ao outro. Graças as minhas pernas andejas. Ao meu corpo ainda forte. O bastante para suportar meu peso. Que não passa dos oitenta quilogramas.
Mais um dia lindo me acena no dia de hoje. Uma sexta-feira de céu azul. Véspera de um feriado nacional. Que cai num sábado. Dia de folgar. Pra muitos. Para mim é dia de ir à roça. Curtir o bucolismo do campo. Afastar-me das lidas da medicina. Que ainda me gratifica. Embora tenha seus percalços.
Mais um dia atravesso. Menos um dia que passa com a velocidade do vento. E como tem ventado nestes dias de setembro. Mês que antecede a primavera. Seco, quente, ventoso.
Menos um dia de vida que passou sem que eu perceba. Aliás, não tenho percebido a passagem do tempo. Mas ele passa. Ultrapassa meus sentimentos. Absolutamente não me vejo velho. Embora seja considerado idoso.
Mais um dia que passa. Menos um dia na minha passagem pelo tempo. De repente não tenho mais vinte anos. Não mais que de repente me despeço de quando ainda era menino.
O tempo passa e eu não sinto a passagem do tempo. Ontem estava exatamente como estou hoje. Saudável, disposto, sem queixas a me azucrinarem por dentro.
E o amanhã? E o depois de outro amanhã?
Para que pensar tanto no que vai suceder nos dias que virão? Melhor viver o dia presente. Ser feliz a cada momento. Curtir a vida sem ressentimentos. Amar o outro como se fosse seu irmão. Ontem foi dia dedicado aos irmãos. Só tenho dois. Mas apreciaria que fossem mais.
Minha família é pequena. Meu irmão mora em outra cidade. Poucas vezes nos encontramos.
Mais um dia. Menos uma semana que passou na velocidade do vento. Ontem foi quinta-feira. Amanhã já é sábado.
Mais um dia. Menos horas a serem contadas na minha vida que passa. Passageiro que sou.
Nesta existência efêmera. Como são as flores do ipê.
Amanhã, depois de outro amanhã, não estarei mais aqui. E daí?
O que conta e a saúde que ainda tenho. A família maravilhosa que me foi presenteada de berço. A alegria que desfruto ao lado dos meus netos.
Podem dizer que mais um dia se passou. Menos um para estar ainda vivo. Menos horas a desfrutar o calor do sol. O frio das noites de inverno. O sabor do verão.
Mais um dia. Menos uma sexta-feira.
No entanto em dois dias recomeça tudo de novo.
É melhor nem pensar no tempo que passa. Pois todos nós passaremos. Mais cedo ou mais tarde não mais existiremos. Mais um dia. Menos um. Caso fossemos pensar na vida por este prisma, descontando o tempo que nos resta, não viveríamos tão felizes como acontece comigo. Pois não consigo pensar noutra coisa a não ser viver prazerosamente. Independente do tempo que me resta.