A vida andava incerta para aquele senhor. O desemprego rondava-lhe a casa.
Pai de família dedicado, trabalhador contumaz, Seu Pedro, já andado em anos, operário de uma fábrica de tecidos, era tido por todos como funcionário exemplo.
Naquela crise sem precedentes a vida corria em marcha lenta para todos aqueles em busca de emprego. Filas enormes dobravam quarteirões. Gente de todas as partes esperava esperançosa o dia quando seriam admitidas em funções quaisqueres. Grande parte delas estava desempregadas há mais de dois anos. Fazendo bicos. Sujeitando-se a subempregos.
Seu Pedro, depois de anos e anos trabalhando duro, ganhava o suficiente para manter a família. Até quando? Pensava ele.
Naquele dia, era uma segunda-feira de setembro, o sol brilhava com seu clarume de incomodar os olhos. Pedro acordou ao nascer do dia. Lavou o rosto n’água fria. Tomou um cafezinho magro na padaria da esquina. O trajeto até o trabalho durava, via de regra, quando o trânsito favorecia, mais ou menos três horas inteiras.
E sempre chegava antes da hora. Quando os portões da fábrica se abriam.
Pedro, naquela manhã de inverno, fazia calor, o sol brilhava, ao chegar à tecelagem foi chamado pelo gerente. Desconfiado Pedro procurou a sala da diretoria.
Ali chegando foi informado, por medidas de contensão de gastos, que seria mais um cortado da lista dos funcionários. Não por ter sido displicente. Ou simplesmente por ser mau exemplo. E sim por medidas tomadas para evitar a bancarrota da fábrica de tecidos.
Pedro juntou seus pertences. Despediu-se dos colegas de tantos anos de trabalho. Lágrimas escorreram-lhe dos olhos. Nunca Pedro havia chorado tão compulsivamente.
Chegou a casa e contou a novidade a esposa. Dona Mariana tentou consolar o cônjuge. Pedro não tinha filhos. Quando nasceu seu primeiro rebento a morte veio lhe buscar prematuramente.
Passaram-se dois longos anos. Pedro procurava emprego todas as manhãs. Debalde. Quando mostrava seu currículo a alguma empresa diziam-lhe que estava velho para aquela função.
Aos quase sessenta anos Pedro tornava-se cada vez mais arredio. Dormia pouco. Emagrecia a olhos vistos. Olheiras profundas marcavam-lhe o canto dos olhos. Amigos afastaram-se.
A única companhia que Pedro desfrutava era a esposa companheira.
Por indicação dela mesma Pedro procurou ajuda médica. Fez todos os exames que se mostraram normais.
Mesmo assim Pedro emagrecia. A insônia tomou-lhe as noites. Até mesmo caminhar nas ruas, o que sempre gostava de fazer, passou a ser mais uma tortura na vida do infeliz Pedro.
Num belo dia, quando se preparava para tentar conciliar no sono, depois de tomar uma pílula para dormir, Pedro teve um sonho.
Sonhou que sua vida mudava. Foi empregado numa empresa de autopeças. E logo foi galgando cargos tempo a tempo, até chegar a gerente.
Ao acordar, durante a madrugada, naquele sono de mentira, Pedro acordou em sobressalto.
Tudo voltou a triste realidade. Aquele sonho bom nada mais era que um sonho.
Pedro era mais um desempregado. Neste país onde os sonhos duram pouco.
Num dia de inverno, era uma segunda-feira, cruzei-me com o infeliz Pedro pela rua.
Ele caminhava lentamente. Com os olhos perdidos em direção do nada.
Parei por alguns segundos. E a ele inquiri como estava.
Pedro, tristemente evitou olhar dentro dos meus olhos. E respondeu, quase monossilabicamente: “quer saber? Nem eu mesmo sei o que se passa dentro de minhalma”.
Logo a seguir Pedro chorou. Compulsivamente.