Passaram-se anos. Meses deixaram seu rastro.
Seu Manoel sempre viveu para o trabalho.
Escriturário numa firma de contabilidade ele nunca perdeu um dia de trabalho.
Desde criança aquele homem bom sentia-se a vontade entre números.
Fazia contas com extrema competência. Era tido aluno acima da média entre seus colegas de infância.
Deixou o curso médio sem poder continuar os estudos. Dedicado, amistoso, era tido entre aqueles que o conheceram uma pessoa sem defeitos.
O tempo passou. Seu Manoel cresceu. Desde garoto ajudava ao pai, que foi chamado para viver ao lado de Deus com apenas vinte anos, nas tarefas de casa. O pai do Manoel sempre foi frágil como as flores do ipê. Aos pouco mais de vinte anos faleceu de causa ignorada. Dele só restaram lembranças boas. E saudades imensas.
A mãe do Manoelzinho da mesma forma foi embora antes que o menino completasse dez aninhos. Deixou-o entregue a uma tia. Uma parenta que mal se dava com o menino.
Contrariando anos e desenganos Manoelzinho continuou seu périplo pela vida. Estudou até os doze anos. A partir de então foi admitido naquele escritório de contabilidade. Onde, dado a sua competência entre os números galgou cargos de confiança, até chegar, aos mais de trintanos, a gerente daquela firma prestadora de serviços.
A vida continuava em sua marcha lenta. Manoel não se casou. Talvez por experiência malograda em sua família. Onde desaprendeu o que seria amor.
Vivia solitário num pequeno apartamento. Ganhava o suficiente para viver uma vida confortável. Durante anos de anos de trabalho conseguiu juntar uma poupança considerável.
Aos quarenta anos, completos naquele janeiro distante, Manoel começou a apresentar sintomas de esquecimento. Saía às ruas e não se lembrava de onde morava. Períodos de ausência importunavam seus colegas de trabalho.
Amigos a ele recomendavam que procurasse ajuda médica. Mas, no entanto, Manoel continuou a sua trajetória sem saber que uma doença grave estava prestes a se instalar em seu cérebro que claudicava.
Aos cinquenta anos Manoel foi encontrado desnorteado numa esquina da cidade. Sem portar documentos, atarantado, Manoel foi levado a uma delegacia. Ali ficou tempos perdidos sem saber informar quem era e onde morava.
Até que apareceu um conhecido. Que o levou ao apartamento onde morava.
A partir de então Manoel, ainda jovem, perdeu a memória completamente. Mal sabia quem seria ele.
Foi aposentado prematuramente por invalidez. Foi diagnosticado como portador da doença de Alzheimer.
Manoel ainda viveu anos e anos. Entregue a um leito, solitário num asilo. Veio a se despedir da vida aos cinquenta e cinco anos. No seu epitáfio estava escrito: “aqui jaz um homem que perdeu a razão”.