Nem mais lhe restou a esperança

Nem mesmo aquele lindo dia de sol, final de inverno, conseguiu alegrar o melancólico Tiãozinho Infeliz.

O céu estava tinto de azul. Nenhuminha nuvem no alto.

Naquele dia, uma quarta-feira, começo de setembro, Tiãozinho completava vinte e seis anos de vida.

Sempre as voltas com o trabalho duro, acordava cedo, tomava três conduções para chegar ao trabalho.

Tiãozinho sempre morou numa cidade grande. Mas nasceu num pequeno povoado. De onde saiu por falta de opção de vida.

Nascido de pais separados, pobres coitados, não puderam dar ao filho uma educação esmerada.

Daí a razão de o nosso personagem ter-se agarrado com unhas e dentes ao trabalho.

Foi office boy. Foi aceito como menor aprendiz. E por aí percorreu sua vidinha insossa. Até se mudar para a cidade onde hoje tenta conseguir novo emprego. Embora as dificuldades por que passa o país.

Justamente no dia do seu aniversário, quando completou vinte e seis anos, recebeu a infausta notícia. A empresa onde trabalhava, era operário modelo, nunca chegou atrasado, pediu concordata.

Mais uma vez o infeliz Tião se viu no olho da rua. Por impossibilidade de pagar aluguel foi despejado de um pequeno apartamento. Ali vivia só.

E como estava difícil conseguir nova colocação.

Todas as manhãs, antes do despertar do sol, Tiãozinho saía às ruas. Com o jornal debaixo do braço. Depois de consultar os classificados. Mas as portas nunca se abriam as suas pretensões.

Tiãozinho passou o aniversário pensando na vida. E que vida era aquela?

Foi um dia triste aquele. Quase final de inverno. Primeiros dias de setembro.

Naquela manhã, esperançoso de conseguir emprego, Tiãozinho amanheceu com as esperanças renovadas de afinal ser admitido numa firma próxima onde morava.

Um primo perto o aconselhou a procurar a tal empresa. Ali se abriram vagas. Por certo uma delas estaria reservada ao seu primo do coração.

Foi com o peito cheio de esperança que o bom moço encaminhou-se para aquela pequena fábrica.

O relógio marcava seis da manhã. Foi atendido pelo gerente. A ele colocou a par suas verdadeiras intenções.

Depois de uma entrevista sumária enfim Tiãozinho foi admitido. Era um salário irrisório. Como ajudante geral não ganharia mais que um salário mínimo.

Mas era o bastante para Tiãozinho viver com certa folga. Era apenas e tão somente ele. Uma boca para tratar.

Depois de uma semana de experiência aconteceu mais um episódio ingrato na vida do pobre Tião. Ele caiu enfermo. Teve de se ausentar do trabalho por justa causa. Mas, assim que teve uma melhora razoável foi novamente dispensado pelo patrão.

De novo no olho da rua. Sem perspectivas de conseguir nova colocação Tiãozinho pensou em mudar de vida. Quem sabe se mudando para outra cidade a vida seria mais fácil? Assim o fez.

Chegou a rodoviária com uma mala cheia dos seus pertences. E uma mochila onde trazia todas as economias de uma vida inteira.

De repente, sem esperar, apareceu um malandro que levou tudo que tinha. Foi assaltado a luz do dia. E nem adiantou lavrar a ocorrência. Pois a delegacia estava lotada de casos semelhantes.

Mais uma vez o infeliz Tião partiu desconsolado. Que país é este? Onde seus filhos não conseguem seu lugar ao sol?

No dia seguinte, véspera de um feriado, sete de setembro, Tiãozinho foi vítima de mais uma fatalidade. A ele foi imputada a pena de estar no lugar errado na hora errada. Foi preso por vadiagem. E ele jurou que não participou do assalto a uma mercearia.

Passou uma semana inteira no xilindró. Saiu por ingerência de um advogado porta de cadeia. Que lhe cobrou honorários além de suas posses.

Mais uma vez o pobre Tião se viu em dificuldades. A primavera estava apenas começando. As flores se abrindo. E a vida se fechando aos olhos do infeliz Tiãozinho.

Mais um desempregado neste país onde as portas se fecham.

Onde a desesperança nos olha com olhos de comiseração.

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