Nada contra o jeito de falar de nosso povo.
Embora digam que a língua portuguesa seja inculta e bela, por vezes a maltratam tanto, a destratam de tal maneira, que meus ouvidos ficam moucos após ouvir tanta besteira.
Amo a exaustão aquelas pessoas que têm o privilégio de viver na roça. É gente simples, acostumada a sofrer, mãos caludas, faces tostadas pelo sol, hábitos singelos, mas, para quem a palavra empenhada vale mais que mil notas promissórias, com firma reconhecida nos cartórios.
Entre eles me sinto a vontade. Esqueço meu português castiço. De vez em quando me pilho falando arrevesado. Insiro de vez em sempre o “pursque” de tanta sofisticação que nos ensinam o dicionário. O pai dos jumentos eruditos.
Já hoje, devido ás internetês, quantos termos novos são balbuciados por aqueles jovenzinhos que não se desgrudam da internet. E passam o tempo inteiro escrevendo como não nos ensinam os professores de português.
E eu, com tantos livros editados, com tantas palavras incorporadas ao nosso idioma tão rico, quase sempre, andando pelas ruas, escuto palavras que me fazem esculpir um monumento a tanto atrevimento, a tanto destrato a nossa língua, a tanta sandice manifesta, por quem desconhece o quanto é belo o nosso português.
Já disse que não sou contra os regionalismos. Nosso país, de dimensões continentais, se permite variar os sotaques. Colocar consoantes onde deviam existir vogais.
Ontem mesmo, de volta de um posto de saúde, numa esquina movimentada, onde carros se atropelam nos semáforos, onde pessoas esperam impacientes que a luz verde se acenda, parei, ouvi, e fiquei apalermado.
Duas senhoras, bem trajadas, acima do peso, pararam no mesmo sinal luminoso onde eu estava.
A indefinição tomou conta das duas amigas. Enquanto uma queria descer o morro a outra se dispunha a seguir o caminho inverso.
Já eu bem sabia pra onde ir. Estava perto de casa. Já quase a hora do almoço quando me preparava para enfrentar a segunda parte do dia.
Num átimo escutei um dedo de prosa das duas senhoras. Não pude participar da conversa devido ao tempo exíguo.
Uma delas, a mais loquaz, de repente, na indefinição pra onde ir, interpelou a amiga com esta pergunta: “Pronde nois vai memo?”
Não foi preciso ajudar na resposta. Elas foram pelo caminho errado. Desceram o rua palreando como duas gralhas berrantes.
Foi quando ainda pude escutar, antes que as perdesse de vista: “vamo em frente. Que atrais vem gente. Se não pode nos atropelar. De repente”.
Cheguei a casa pensando na minha primeira professora de português. Ela deve estar se remoendo na cova. Pensando no quanto a nossa língua é vilipendiada. Mal amada. Execrada. Judiada.
Embora digam que a língua portuguesa seja inculta e bela, por que não tentar inserir cultura onde a mesma já foi, há muito tempo, para a sepultura?
Dá pena…