Era uma quinta-feira, quase final de agosto.
Fazia frio. O céu se mostrava nublado. A seca esturricava os pastos. Queimadas eram comuns naquela época do ano.
Zé da Enxada acordou de bom humor.
Afinal, na véspera de completar seus sessenta e cinco anos, bem vividos, um vizinho de pasto a ele confidenciou: “Zé. Você pode comparecer a agência do INSS. E requerer a tão sonhada aposentadoria”.
“Eu assim o fiz. E voltei feliz da vida com o comprovante que eu estaria aposentado a partir de hoje. Não que pare de trabalhar. Pois ainda tenho saúde bastante para continuar na lida”.
Zé, ainda forte o bastante, mãos caludas, tez tostada pelo sol, terminou as tarefas do dia e se encaminhou a cidade. Foi de carona no velho caminhão leiteiro. Cujo motorista era seu compadre.
Juntou no velho embornal surrado todos os documentos colecionados por toda uma vida.
Não podia faltar a certidão de nascimento. A carteira de identidade. O tal CPF. E todos os carnês de contribuição pagos religiosamente ao final do mês.
Era final de expediente quando Zé chegou a tal agência da previdência social. Encontrou a porta fechada. E um funcionário de cara amarrada o avisou que apenas no dia seguinte poderia realizar seu sonho.
Zé da Enxada voltou a sua rocinha querida. Ali encontrou o mesmo cenário de dantes.
Vacas famintas, bezerros berrantes, a porcada grunhenta aos berros no chiqueiro precisando de faxina.
Era quase seis da tarde quando Zé terminou a lida do dia. Cansado, com as juntas doendo, Zé caiu na cama sem ao menos tomar um banho.
No dia seguinte a mesma cantilena. Ordenhar as vacas, tratar dos porcos, e, antes do meio dia Zé voltou à cidade.
Desta vez perdeu a carona do velho caminhão leiteiro. Foi montado na mula de estimação. Arriou-a com todo capricho. E chegou a cidade por volta do meio dia.
Deixou a mula amarrada num poste de luz. Era quase hora da agência se abrir.
Enfrentou uma fila quilométrica. Incontáveis postulantes a aposentadoria esperavam com o mesmo propósito.
Mais ou menos quatro da tarde quando chegou a vez do desafortunado Zé da Enxada. A funcionária que o atendeu, sem ao menos olhar nos olhos, depois de olhar atentamente todos os documentos trazidos pelo Zé, num desdém advertiu-o que faltava o carnê do ano de dois mil novecentos e cinquenta e nove. Justamente aquele que o cachorro havia comido.
Zé da Enxada novamente perdeu a viagem. E, para completar o azar, quando foi procurar a mula, onde estaria ela?
Um guarda, mal encarado, levou-a para um curral de animais extraviados.
Foi preciso juntar paciência com uma nota de cem reais para reaver a pobre companheira de viagem.
Zé mais uma vez voltou a roça sem conseguir seu intento.
Passaram-se mais sete dias. Um mês inteiro se foi.
Zé, obstinado e aguerrido, não desistiu do seu direito a aposentadoria. Afinal eram tantos anos de trabalho duro. Com todas as contribuições em dia.
Numa sexta-feira, final do expediente, exatamente no dia do seu aniversário, vinte e nove de agosto, quando se preparava para voltar a cidade, com todos os documentos guardados no velho embornal surrado, certo que desta vez conseguiria a tão sonhada aposentadoria, sentiu uma fisgada no peito.
Assim que chegou a cidade, com falta de ar, foi levado por populares a um pronto socorro.
Morreu antes de conseguir se aposentar. Justamente na véspera da aposentadoria Zé da Enxada teve o merecido descanso.
E, segundo dizem as más línguas, esse fato acontece bem mais do que se imagina. Neste país onde tantos se aposentam indevidamente. Antes da idade correta. E outros, desafortunados cidadãos, sofrem da mesma desdita. Aposentam-se no tempo certo. Depois de anos de trabalho duro. Mas mal têm tempo de desfrutar a aposentadoria. Já que no céu moram anjos. E anjos não percebem nada. Apenas cuidam da gente. Sem levar vantagem alguma.
Justamente na véspera da aposentadoria Zé da Enxada foi ao céu. Daqui de baixo o vejo sorrindo. Curtindo a tão sonhada aposentadoria. Sem precisar receber aquela soma irrisória. Que mal dá para as despesas ordinárias. Pois no céu dinheiro não tem vez.