Quem me dera retroceder no tempo. Voltar atrás. E assoprar a primeira velinha do meu aniversário.
Domingo passado foi a vez do meu netinho Gael. Há dias atrás foi a vez do meu primeiro neto completar três aninhos de vida. Em pouco tempo meu neto mais novo, o Dom, risonho como sempre, inserir em seu calendário seu primeiro ano.
E eu, passados tantos anos, que nem me lembro mais, em dezembro perto estarei setentando.
Parece que foi ontem.
Meus pais devem se lembrar do meu primeiro aniversário. Foi na bela Boa Esperança. Onde nasci. E permaneci cinco anos naquela cidade linda. Hoje banhada por uma represa. Mas poucas lembranças me trazem daquele ano distante, dois mil e novecentos e cinquenta, precisamente dia sete de dezembro, quando inseri ao meu currículo de vida meu primeiro aninho.
Ainda tenho, às minhas costas, uma velha fotografia.
Trata-se de um quadro montado por minha esposa. Na primeira foto, eu menino, vestindo um terninho azul marinho, apontava o dedo indicador como se fosse um revolver engatilhado.
Na outra uma tia querida amparava-me os passos inseguros. Na terceira eu peladinho estava num galinheiro. Distribuindo milho as galinhas. Na quarta foto minha mãe, vestida como uma colegial. Elegante como sempre. Na quinta fotografia, a derradeira, nos ombros do meu pai fazia pose. Junto a nós a figura sempre lembrada da minha mãe.
Tudo isso se passava na Boa Esperança de antão. Cidade próxima a minha querida Lavras. Pra onde voltei poucas vezes. Daí as parcas lembranças que o passado me traz quando vivi ali.
Quisera fosse hoje, neste final de agosto, que as fotografias fossem revividas de volta. E pudesse ter novamente meus pais ao meu lado.
Não em criança. Já adulto feito. Para agradecer-lhes tudo que fizeram por mim.
Quisera fosse hoje, nestes tempos de inverno, os ipês já estão floridos, a seca continua, pudesse abraçar meus tios que já faleceram. E tantos colegas que já se despediram de mim.
Quisera fosse hoje, quase setentão, pudesse voltar ao passado. Mesmo que fosse por alguns minutos apenas. No intuito de desfrutar a companhia de velhos amigos. Quando fomos colegas naquela escola cujo uniforme é verde e branco.
Quisera fosse hoje, ainda me sentindo jovem, embora tenha a carteira de idoso, pudesse voltar aquela pracinha, a mesma que se mostra na velha fotografia. E repetir as fotos ao lado dos meus pais.
E como gostaria que fosse hoje, nesta quarta-feira de agosto, dia nublado, pudesse repetir o ciclo de minha vida.
Voltar alguns anos atrás. Dar uma volta no rela do jardim. Onde encontrei minha namorada. Que hoje se tornou minha esposa.
Quisera fosse hoje, passados tantos anos, eu pudesse voltar a infância, passar as férias de fim de ano naquela fazenda de um tio meu.
Quisera fosse agora, nesta manhã de uma quarta-feira, pudesse voltar à Boa Esperanca, na esperança de rever meus pais.
Pena que tudo isso não passa de uma quimera. Mas sonhos não devem ser interrompidos. Mesmo que sejam apenas sonhos.
Quisera, nesta derradeira linha deste meu texto, desejar aos amigos, aqueles com quem encontrarei neste dia cinzento, um dia feliz. Que o sol surja por entre as nuvens. Que a felicidade se estenda a todos vocês.
Ah! Quem me dera…