Finado agosto

Mais um mês que se despede. Quase um ano tem seu fim.

Amanhã é sábado. Dia trinta e um de agosto.

Mês frio, ventoso, de céu azul e ipês floridos.

Hoje mesmo o azul do céu predomina. A seca continua provocando queimadas país afora.

Mais um final de semana que se avizinha. Outra sexta-feira que agoniza.

Menos um dia em minha vida. Quantos mais terei? Ignoro. Faço questão de não saber.

Agosto foi um mês que passou como vento passa. Encerra-se mais um mês em nossa vida.

Amanhã, depois de depois de outro amanhã, tomara esteja aqui para contemplar a vida.

Afinal são quase setenta anos. Em dezembro perto estarei um ano mais velho.

Conheci um senhor, bem velho, quase da idade daquela serra, que um dia, foge-me a lembrança de quando foi, por aqui passou.

Seu nome era Agostinho. Nascido no mês de agosto. Daí o apelidaram de Finado Agosto. Não sei a exatidão quando foi seu óbito.

Um parente perto, brincalhão, dizia que o seu Agostinho foi sepultado no fim de agosto. Exatamente quando este mês, que hoje quase se encerra, falta um dia apenas, fecha seus olhos, e quase agoniza.

Bem me lembro da sua visita. Seu Agostinho queixava-se de dor na urina.

Há semanas sofria com enormes dificuldades de esvaziar a bexiga. Até que numa sexta-feira, quando ele me procurou, tive de introduzir uma sonda pela sua uretra. Foi um alivio enorme. O semblante de seu Agostinho se desanuviou.

Ele, ao deixar meu consultório, agradeceu-me penhoradamente o pronto atendimento.

Nunca mais o vi. Disseram que ele se despediu da vida no final de agosto. Morreu dormindo.

Quem cuidou das suas exéquias confidenciou-me que ele faleceu com um sorriso nos lábios. Feliz por ter vivido. E mais feliz ainda por ter se despedido da vida.

Ainda hoje, final de agosto, céu azul, sol brilhando, final de semana se anunciando, bem me lembro do seu Agostinho. De quando ele daqui saiu. Despedindo-se de mim.

Um dia despedir-me-ei da vida. Tomara seja com a mesma felicidade que agora estou.

Que seja num dia como o de hoje. Céu azul, sol a pino, nenhuma nuvem no alto.

Que seja num final de agosto. Mês quando os ipês florescem. Mês do nascimento do meu pai.

Hoje o sol brilha forte. Nenhum sinal de chuva no alto.

Trata-se de uma sexta-feira linda. Prenúncio de um final de semana mais bonito ainda.

Estamos em finado agosto. Não sinto nenhum desgosto por estar vivo.

Que possa contemplar outros meses com a mesma com a mesma clarividência de agora.

Que veja outros finados agostos com a mesma desenvoltura de hoje.

Quando me lembro do Seu Agostinho, da alegria que vi manifesta em seu sorriso, creio ter sido o último, não me resta outra coisa senão reverenciar a vida. Como aprendi a não lamentar a morte.

Estamos em finado agosto. Logo entra a primavera. Que sobrevenham outros verões.

 

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