Causa mortis : mesmice

Isso de fazer tudo sempre igual, acordar a mesma hora da manhã, tomar um cafezinho magro, sair de casa rumo ao trabalho, fazia parte da rotina do desinfeliz trabalhador.

Zé da Aurora sempre acordou cedo. Começou a trabalhar com apenas dezesseis anos.

Nascido num bairro de periferia Zé mal conhecia os pais. Desde tenra idade Zé foi abandonado. Virou menino de rua.  Dormia ao relento. Assim que completou cinco anos teve a primeira desdita. Foi pilhado em fragrante cheirando cola de sapateiro. Foi então internado numa instituição para menores abandonados. Ali conheceu o lado negro da vida.

Apanhou como nunca de um guarda que por ele tinha ódio mortal. Deixou aquela casa pensando em mudar de vida. Mas só conseguiu aos quinze anos. Quando uma alma piedosa dele se compadeceu.

Foi empregado numa padaria. Aprendeu logo o ofício de fazedor de pães. Aos menos de vinte se tornou o padeiro chefe daquele comércio cujo dono virou seu amigo. Mas pouco durou naquele ofício. Numa manhã, bem cedo, quando se preparava para entrar no serviço eis que surge um sujeito mal encarado que anunciou um assalto. Foi levada toda a féria do dia anterior. Sabe quem pagou o pato pelo roubo? Não foi outro senão o infeliz Zé da Aurora.

Zezinho passou dois meses no xilindró. Até que lhe fosse comprovada a inocência. Pegaram o tal sujeito que confessou o assalto. Mas era tarde. Zé da Aurora pegou fama de bandido sem culpa no cartório.

Aos trinta, por sorte do infeliz, mais uma vez sua sina parecia mudar. Foi empregado numa empresa de transporte coletivo. Tornou-se motorista de lotação. Trabalhava desde as cinco da manhã até o debruçar da noite alta.

A rotina do Zé era a mesma de sempre.

Acordava antes das quatro. Tomava uma ducha fria para despertar de vez. Um cafezinho magro fazia parte de sua dieta. Zé da Aurora engordava a olhos vestidos.

Antes dos quarenta anos pesava mais de cem quilos.

Como motorista de coletivos a rotina era sempre a mesma. Chegava à empresa já com o uniforme trocado. E ele mal cabia naquela roupa que parecia sempre encolher a cada manhã.

Como norma de serviço tinha de tratar bem os fregueses. Sempre solícito nunca atrasava. Parava no ponto certo. Deixava o ônibus quando um cadeirante estava no ponto. Abaixava o elevador. Servia ainda de trocador. E distribuía sorrisos mesmo quando chorava por dentro.

Quando chegava o fim do dia Zé sentia como se fosse tirar um peso enorme das costas. Todo seu corpanzil doía.

No dia seguinte mais uma jornada se anunciava.

O salário não era lá dessas coisas. Mal lhe supria as necessidades. Por sorte, ou seria azar, Zé não se casou. Vivia solitário num apartamento alugado.

Naquela manhã Zé acordou com um estranho pressentimento. Sonhou com um caixão escuro. Dentro dele um velho conhecido. Seria ele mesmo?

Zé deixou a morada à mesma hora de sempre. Tomou um cafezinho magro. Tomou uma ducha fria. E vestiu o mesmo uniforme costumeiro.

Chegou à empresa de ônibus um pouco atrasado. Naquela manhã não se sentia bem. Um apertume no peito quase o fez vomitar.

Durante a primeira viagem quase colidiu com um carro. Por sorte ficou no quase. Antes de chegar ao ponto final respirou fundo.  Transpirava por todos os poros. Sua camisa se fez molhada. O coração batia descompassadamente. Foi levado por passageiros a uma unidade de saúde. Ali permaneceu em observação por algumas horas. Foram debaldes as tentativas de ressuscitar o pobre Zé. Ele foi a óbito. Como causa mortis, diagnosticada no atestado de óbito, se podia ler: “mesmice, dura rotina”.

Mais um infeliz que sucumbiu à rotina. Penso, com meus botões.

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