O mês de julho finou. Terminaram as férias escolares.
Acontece que Júlio, gente operosa, trabalhador, acordou naquela manhã linda, do último dia do mês de julho, sentindo no peito uma angústia enorme.
Uma sensação de desconforto. Um sentimento ruim. Como se uma faca lhe fosse ensartada no peito. Provocando dentro dele algo semelhante a um infarto.
Mesmo assim Júlio encaminhou-se ao trabalho.
Era operário numa metalúrgica. Distante de onde morava.
Desde os dezesseis anos o bom homem era o encarregado da produção. Foi subindo pouco a pouco. Entrou como office-boy. Graças ao bom desempenho, e ao aperfeiçoamento constante, caiu nas graças do gerente. Em menos de dois anos foi elevado ao cargo máximo daquela indústria enorme. Aos quarenta anos ganhava o suficiente para comprar uma bela casa. E assim o fez. Apesar de ainda morar sozinho. Júlio não se casou. Preferiu continuar na própria companhia. Embora algumas mulheres houvessem passado por seu crivo exigente, o esperto Júlio não se agradou de nenhuma delas.
Júlio chegou ao cinquenta anos ainda solitário. Desfrutava de boa saúde. Exercitava-se diariamente numa academia. Corria sempre mais ou menos dez quilômetros numa esteira. Nadava quando a temperatura ensejava.
Ainda longe da aposentadoria Júlio precisava de descanso. Foi quando tirou férias.
Era começo do mês de julho. Desde há anos passados Júlio não tirava um tempinho para si mesmo. Vivia para o trabalho. E pensava que ele a ele bastava.
Assim que chegou aos sessenta anos resolveu ir ao médico. Até então nem mesmo uma consultinha de praxe fazia parte de sua rotina pesada.
Pensava que a saúde nunca iria abandoná-lo.
Até aquele malsinado dia. Final de julho, final de férias.
Prestes a voltar ao trabalho, era uma linda manhã, do derradeiro dia do mês de julho, quando se preparava para voltar à atividade, sentiu uma fisgada no peito. Júlio transpirava de dor.
Foi levado às pressas para o hospital. Ali chegou quase morto. Diagnosticaram-lhe um infarto do miocárdio. Permaneceu na unidade de tratamento intensivo por uma semana inteira. Permaneceu entre a vida e a morte.
Quando se preparava para receber alta mais um percalço interpôs-se entre ele e a vida.
Uma pneumonia fez-se presente. Apesar dos esforços dos médicos Júlio não resistiu. Veio a falecer no último dia de julho.
O finado Júlio foi sepultado no derradeiro dia de julho. Podem pensar que foi coincidência. Ou mais uma invencionice minha. Mas desconjuro que foi mais uma inverdade. Fui eu quem expediu o atestado de óbito. Podem ver, pela data, que o finado Júlio morreu no último dia do mês de julho.