O dia em que o leite abaixou e Tião Seriema azedou

O dia amanheceu lindo naquela manhã de uma terça-feira.

Não fazia frio como a manhã passada. Nem mesmo calor em demasia.

O sol lambia com seus raios amarelos a pastaria coberta de um gelo fino.

Tião acordou cedo. O relógio de cabeceira acusava cinco da manhã.

O homem da roça lavou a cara mal dormida na pia do banheiro. Ao olhar no espelho assustou-se com a sua carantonha esquisita. Cabelos desgrenhados, rosto sulcados pelos anos, olhos ladeados por olheiras profundas. Aos pouco mais de quarenta anos Tião parecia ter muitos anos mais.

Acontece que a vida na roça deixa marcas profundas na face de quem lá vive desde o nascimento. Tião amava aquelas paragens isoladas do resto do mundo. Uma vez apenas se mudou pra cidade. E em pouco tempo arrependeu-se amargamente. Retornou ao convívio dos seus bichos de estimação. E como amava as vacas, idolatrava as galinhas, tinha pela porcada faminta verdadeira adoração.

Naquele mês de julho, em seus estertores finais, Tião levantou-se num átimo. Foi ao curral ordenhar as vacas. Que já o esperavam mugindo de saudade.

Em pouco mais de hora e meia Tião terminou o primeiro serviço do dia. Encheu dois baldes de leite quente pelas beiradas. Foi quando desceu pela ladeira empinada o caminhão leiteiro. Foi ele mesmo quem lhe deu a notícia. O leite despencou de preço. Justamente naqueles tempos difíceis da estiagem do inverno.

A importância paga pela produção do mês inteiro mal dava para pagar a ração. E os custos da silagem de milho? E as despesas com os remédios aplicados nas vacas? Uma delas apareceu com uma inflamação nas tetas. Quase perdeu o mojo inteiro. Foi preciso chamar um veterinário. Só a visita do profissional das vacas ficou em mais de quinhentos reais.

Desiludido, amargurado, Tião pensou em abandonar tudo aquilo. Mas não sabia fazer outra coisa. Afinal, nascido e criado na roça, só lhe restava continuar na peleja. Vender a vacada, por à venda aquela gleba de terras, talvez fosse a solução.

Mesmo assim o desalentado Tião perseverou na lida. Mais um ano se passou. O inverno chegou. A temperatura abaixou. Numa noite fria Tião acordou em sobressalto.

Do lado de fora da casa uma vaca, a melhor do seu plantel, acabou atolada no brejo fronteiriço. Foi preciso upa para desatolar a vaca. Mas ela acabou virando pasto aos urubus.

Naquele dia, infeliz, depois de ordenhar as vacas, e perceber que faltava energia, ao abrir o tanque de expansão constatou que toda a produção de dois dias inteiros havia azedado.

Não havia como salvar toda aquela quantidade de leite com cheiro que lhe causava asco.

Mesmo assim, sujeito a todas as contrariedades, como não tinha outra opção de vida, Tião perseverou.

Passou adiante todos os bezerros machos. Eram lindos garrotes. Cada um valia mais de quinhentos reais.

Acontece que, naquele dia maldito, quando foi ao banco sacar a importância que constava no cheque, verificou que ele não tinha lastro. Era um cheque sem fundos. Ainda por cima roubado.

Foi mais uma noite mal dormida. Tião acordou com sabor de infelicidade na sua boca desdentada.

Foi ao curral. Ali encontrou o mesmo cenário de dantes. A vacada faminta. Os bezerros berrando. O leite azedando. E preço despencando.

Tião Seriema não pensou duas vezes. Passou adiante a sua rocinha querida. Mudou de vida. Aposentou-se com um salario mínimo. E passou o resto dos anos infeliz da vida.

Pensando o quanto seria feliz, caso o leite não azedasse. E o preço não despencasse.

Essa é a dura realidade de quem vive na roça. Pena que quem nos governa mal sabe da importância de quem lida com a terra.

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