Aquele dia de outono amanheceu com uma brisa fresca, sol a despontar no horizonte.
Chovera um pouco a noite passada.
Antero acordou antes das cinco da madrugada. Como de costume se pôs de pé.
A esposa, dedicada mulher, recomendou-lhe silêncio. Pois uma linda criança dormia num pequeno berço ao lado da cama.
Aquele pequeno apartamento, comprado à prestação, ficava num bairro de periferia. Longe do centro. Distante do trabalho de Antero.
Para chegar aonde precisava o experiente metalúrgico precisava tomar mais de quatro conduções. Daí a acordar cedo. Ele carecia de mais ou menos duas horas para chegar ao trabalho. Uma siderúrgica que produzia aço da melhor qualidade. Produto destinado à exportação.
Antero era operário exemplar. Dedicado, competente, jamais, na sua folha corrida, havia perdido um só dia de trabalho. Só se lembrava de uma falta devido a uma doença que o deixou hospitalizado.
Sempre elogiado pelos patrões Antero fazia jus a sua fama de caxias. Chegava antes da hora. E não parava até o terminar do expediente.
Acontece, devido à crise por que o país atravessava, naquela manhã de outono, assim que Antero chegou ao trabalho, constatou, numa lista afixada na porta da fábrica, que ele era mais um dos demitidos. A empresa alegava redução nos gastos. Na iminência de bancarrota não lhe restava outra opção.
Antenor, num sentimento de angústia e decepção, foi ao RH saber o quanto teria de receber.
Ficou no seguro desemprego mais de quatro meses. Sempre a procura de trabalho.
Acontece que nada apareceu naquele período de crise por que o país passava. As economias se esvaíram como fumaça depois de uma queimada.
Naqueles tempos Antenor contava com quase cinquenta anos. Conseguir novo emprego, naquela idade tida como avançada, era considerado missão impossível. Gente mais jovem era admitida. E velhos como ele engrossavam a fila do desemprego.
Numa manhã de inverno Antenor persistiu na sua busca de novo emprego. Acordava cedo. Com a lista de classificados dos jornais percorria a cidade de ponta a ponta. Mas todas as portas continuavam fechadas. Sob a alegação de não haverem vagas.
Dois anos se passaram. A família de Antenor acabou perdendo o apartamento. O mesmo foi entregue de volta ao banco onde foi feito o empréstimo.
Uma vez no olho da rua, sem ter onde morar, os três acabaram se juntando aos moradores de rua.
Sem teto, sem dinheiro, o que fazer naquela situação aflitiva?
Antero passava noites e noites sem dormir. Pensando na droga de vida que levavam.
Numa manhã de inverno, fazia frio de enregelar pinguins, apareceu uma alma piedosa na rua onde dormia a família de Antero.
Era uma senhora de meia idade. Semblante gentil, olhos claros.
Assim que ela passou os olhos na filha de Antero logo seus olhos brilharam. “Que criança linda”. Exclamou a senhora.
“Vocês não têm onde morar? Venham para minha casa. Vivo só”.
Os olhos de Antero encheram-se de esperança. Afinal era uma luz ao fim do túnel. Desde aquele dia não mais dormiram na rua. Todos passaram a morar na casa da velha senhora.
Era uma casa ampla. A senhora era viúva. Sem filhos. E precisava de alguém para cuidar dela.
Feitos caseiros daquela casa espaçosa a família de Antero mudou de vida. Passaram anos e anos desfrutando aquele conforto inesperado.
Acontece, como nem tudo que reluz é ouro, numa manhã de domingo a velha senhora partiu para sempre. Foi levada a morar no céu.
Antero não podia permanecer naquela casa. Carecia de nova mudança.
Numa segunda-feira a família de Antero deixou aquela residência amistosa. Voltaram a morar na rua.
Naquele interim o desempregado contava com quase sessenta anos. Ainda sadio. Ávido por conseguir trabalho.
Até que enfim tudo parecia mudar. Antero foi admitido numa padaria como ajudante de padeiro.
No entanto, meses depois, a casa de pães fechou as portas. Mais uma vez Antero se viu em dificuldades.
Só lhe restava uma única esperança. Voltar à casa da velha senhora que os recebeu tão bem.
Ao chegar lá mais uma desilusão saltou-lhe aos olhos. A velha casa foi demolida. Para ceder lugar a um prédio alto.
Antero perambulou por dias a fio pelas ruas da cidade. Deixou a família num abrigo da prefeitura. E mais uma vez partiu em busca de trabalho.
Só lhe restava mais uma esperança. A última que morre. E ela morreu com ele. Numa curva do caminho. Durante uma tempestade.