Aprendi, com os anos

Desde cedo, menino ainda, aprendi, nos bancos escolares, todas as letras do alfabeto.

Por elas me encantei. Mas, como nem tudo é perfeito, os números também tinham o seu lugar ao sol. Deixei-os de lado. Até hoje mal sei quanto perfaz uma simples divisão. Multiplicar então, agora, principalmente, de tanto me acostumar ao que tenho, a ambição de juntar sempre mais nos tempos de agora não faz parte dos meus planos. Aprendi, com a idade, que a gente pode ser feliz juntando apenas as letras da palavra felicidade. Quanto mais velho ficamos aprendemos, com a experiência dos anos, que em qualquer lugar pode-se ser feliz. Desde que a gente se sinta bem. Seja numa bela casa beira mar. Ou numa singela choupana por onde o sol entra, iluminando-nos o interior com a chama ardente da alegria, mesmo nos momentos tristes ela existe. Basta procurá-la sempre.  Enquanto estivermos vivos em algum lugar encontraremos a luz do sol. Entre nuvens, como no dia de hoje, quase final de ano, mesmo entre os desenganos, tão comuns entre os seres viventes.

Aprendi, com a passagem dos anos, que nem sempre o sucesso faz parte da gente. Por vezes ele se esconde nalgum lugar improvável. Quem sabe, por outro caminho, ele chega sem anúncio prévio?

Tenho aprendido sempre. Por mais que digam que estou ficando velho ainda continuo a aprender outros idiomas. Quem sabe algum dia possa me mudar para outro país. Onde a literatura seja levada a sério?

Aprendi, com os anos, que não se deve interromper nunca o aprendizado. É lendo que se aprende. È estudando que retardamos o envelhecimento.

Tenho aprendido continuamente. Mesmo sem voltar aos bancos escolares aprendo com a gente singela da roça. Com eles aprendi quando vai chover. A época ideal para na terra lançar sementes. Quando a vaca dá cio. Em quantos dias, meses, a égua vai parir de novo. A ser estoico e comedido. A enfrentar as vicissitudes da vida quando elas acontecem.

Não me atrevo a dizer que aprendi, com a idade, a ser mais paciente. A ansiedade ainda me domina. Mas tento controlá-la. Aquietar meu espirito talvez seja missão quase impossível.

Aprendi, nestes tempos de mudança de ano, a ter esperanças em um país melhor. Quem sabe, tomara, no ano que se anuncia perto, o desemprego atenue, as diferenças sociais não se aprofundem tanto, a violência desmedida seja em verdade contida, não apenas seja mais uma falácia do governo que está prestes a ser empossado.

O aprendizado contínuo continua a fazer parte de mim. Talvez por esta razão muitas pessoas duvidem da idade que tenho.

Aprendi, com os passarinhos, que viver em gaiolas não faz parte da felicidade que tanto procuro. A liberdade é um bem maior. Poder ir e vir, decidir qual caminho seguir, é uma opção de vida da qual nunca deveremos abdicar.

Tenho aprendido sempre, mesmo sem estudar tanto, que escrever a cada manhã tem o poder de me acalmar mesmo nos dias quando a sofreguidão toma conta da gente. Quando a pressa nos consome. Naquelas noites mal dormidas que têm feito parte do meu cotidiano sempre igual.

Aprendi, com o passar do tempo, que quanto mais a gente tenta se ver livre das doenças mais elas se apoderam de nós. Por este motivo não recomendo que me sigam os passos. Tenho por mim que a atividade física é tão vital quanto o ar que se respira. Bem melhor do que ficar sempre preso a preocupações com a saúde. Fazendo exames de rotina, procurando recursos que a medicina oferece. Simplesmente para fazer diagnósticos de enfermidades antes que elas se mostrem à luz do dia.

Aprendi, nestes anos todos como médico, são mais de quarenta anos, que, para evitar doenças devemos ignorá-las. Quando nos lembramos delas elas mostram a cara cinzenta.

A experiência acumulada em quase setenta anos de vida me ensinou quase tudo da vida. Mas ainda tenho muito a aprender. Tomara possa passar um cadinho do que aprendi aos meus netos.

A vida é o melhor professor que já tive. Nada contra os mestres que ajudaram na minha formação.

Mas, a experiência dos anos, os acertos e senões, por certo tiveram grande participação no que sou agora. E no que serei daqui a alguns anos.

Quando deixar de aprender, por certo não terei mais razão de viver.

Aí, nesta encruzilhada da vida, tomara, antes da minha despedida, possa passar a vocês, leitores, amigos, descendentes, o quanto me faz bem aprender.

Ontem, hoje, e sempre.

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