Amanhecer de mais um amanhã

Quantos amanhãs me esperam? Quantos dias mais tenho de vida?

Quantas horas me restam?

São questões que em absoluto me fazem perder o sono. Ele cada vez mais se reduz. Quanto mais velho fico menos horas passo no leito.

Já deixei escrito meu testemunho. Em outro texto recente: tenho medo da noite. O dia foi feito para viver em plenitude máxima. Devo aproveitar o tempo em suas horas plenas. A noite pra mim não tem outro significado senão uma perda de tempo. Na sua escuridão costumeira não posso vislumbrar nenhuma ave voando. Nenhuma flor se abrindo. Nenhuma mãe observando o sono da criança. Pois ela também está dormindo.

Vivo as horas com a sofreguidão de outrora. Procuro desfrutar ao píncaro o clarume do dia.

Uma vez criança, já fazem tantos anos, dormia a sono solto. Era só fechar os olhos e logo a noite chegava. Já hoje, longe se vai a infância, as horas passam frenéticas, e eu quase velho, ainda não me sinto tanto, não tenho tanta necessidade de dormir tanto.

De tempos pra cá procuro aproveitar ao máximo as madrugadas. Desço a rua quando ela está quase vazia. É quando a inspiração me assalta com fome. E faço questão de alimentá-la escrevendo a dedos soltos.

Hoje, vinte e sete de dezembro, quase o ano se despedindo, acordei a hora de costume.

Recentemente me mudei para pertinho de onde escrevo. Deixei a casa do condomínio na intenção de me aproximar ainda mais dos meus netos. Agora são três.

Em ordem de idade: Theo, Gael, e por último mais um menino – Dom.

Sempre os deixo dormindo. Crianças são como anjos. Não tem maldade. Este sentimento ruim se apossa apenas dos de maior idade.

Pena que o mundo não pode ser dirigido por crianças. Seria uma doce utopia pensar assim.

Em poucos dias o ano velho se transforma. Como seria bom se a gente seguisse as pegadas dos anos. Mas, seguindo a ordem natural das coisas, a metamorfose que se opera em nós não é como o nascer de um novo ano.

Ficamos velhos a cada ano que passa. Mas quando muda o ano um novo nasce. Com esperanças renovadas. É como se nascesse uma criança. Como há poucos dias nasceu o Dom. Que ele tenha o dom de me transformar em menino de novo.

Como se fosse possível retroceder nos anos.

Na virada de anos logo vêm as reminiscências. As relembranças, ou que nome dar aos fatos passados deste ano que agoniza de repente.

Foram tantas as lembranças da minha infância, tantas, que não tenho como me recordar de todas elas. Daqui do alto, de onde escrevo, neste dia de céu cinzento, mais tarde penso que vai chover, como choveu durante a noite, olhando para o lado esquerdo, da janela, vislumbro em suja totalidade o meu passado. A casa que me viu crescer está de janelas fechadas. No meu antigo quarto agora dorme uma menina. No esplendor dos seus muitos anos.

A rua que daqui se avista, pelos fundos, foi onde ensaiei meus primeiros passos. Para não ser repetitivo vou deixá-la entregue as suas lembranças. Dos tempos quando fui criança. Antes de crescer, de adulto me tornar, de idoso não me considerar.

Agora, com o nascimento do meu terceiro neto, mais um menino, fiz questão de me mudar para pertinho deles. Quem sabe, brincando com um, observando o sono de mais um, consiga retroceder nos anos. Quiçá alongar-me o tempo de vida. Prolongar a saúde que ainda me domina?

Tenho receio da noite. De não acordar no outro dia. De continuar de olhos fechados ao amanhecer com o clarume do dia.

Daí o acordar cedo. O madrugar me inspira.

De aqui a pouco estarei no meio do dia. Logo a tarde chega. A noite vem em contrapartida.

Mas, espero, sempre, de coração transbordando de esperança, que outros amanhãs aconteçam. Para que novamente anteveja a luz do dia.

Sempre acordo antes que o sol ilumine a terra. Dias nublados , como o de hoje, da mesma forma são inspiradores.

Tenho medo da noite. Amo a claridade. A escuridão me arrepia.

Não ano vindouro entro na casa dos setentões. Mesmo assim espero que a idade não me pese tanto aos ombros. Tomara possa acompanhar meus netos em seus folguedos com a mesma disposição de agora. Por quantas manhãs mais? Por quantos anos mais? Tomara sejam muitos.

Hoje percebi o amanhecer de mais um amanhã. Amanha será mais um dia. E depois de depois de amanhã? Essa indefinição que me fascina.

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