Nada dava certo para aquele homem do campo, trabalhador contumaz, fervoroso devoto de nossa Senhora Aparecida.
João do Povo sempre jogava na loteria esperando a sorte mudar. Não que fosse viciado em jogo. Mas sempre fazia uma fezinha, todo fim do dia, assim que a tarde morria.
Empenhava as sobras da renda pouca no jogo do bicho. Mas sempre perdia as apostas. Azarão que sempre foi.
As tarefas da roça eram duras. O pouco de leite que vendia ao lacticínio mal dava para as despesas. Tudo que percebia era enfiado na roça de milho. Na compra de alguma rês nova. Que via de regra perdia um peito, atolava no barro fresco, e acabava perdendo a cria assim que paria.
Mas João do Povo, apelido advindo de quando tentou se eleger vereador num pleito do qual nunca mais vai se esquecer, inclusive a própria mãe não votou nele, nem o maior amigo, nem por isso se converteu em inimigo, sempre persistia na esperança de as coisas mudarem. Pior do que está não podia ficar.
João era valente e persistente. Tinha fama de não levar desaforo pra casa. Um dia, dia este lembrado nos arrabaldes, ao se deparar com uma cascavel de bote pronto, acabou por dominar o bicho morrendo-lhe a cauda balançante. Do embate saiu vitorioso. Embora as pessoas comprovassem que o valente João houvera saído do lugar com as calças cheias. Tremendo como bandeiras ao vento.
João viu o Natal passar em branco.
Não tinha dinheiro para comprar uma lembrancinha sequer. Também, por sorte dele, e dos demais circunstantes, nada sobrou naquele fim de ano amaldiçoado. A não ser lembranças ruins.
João não tinha filhos. Muito menos descendentes diretos. Vivia só. Entre vacas e galinhas, entre porcos e seriemas. Diziam todos os vizinhos que a única mulher que João teve entre os braços foi um égua pampa, que lhe deixou um belo coice nas partes intimas, que resultou numa esterilidade que até hoje continua.
Mesmo sujeito a toda a sorte de inconveniências o pobre João não desanimava.
Na véspera de fim de ano, semana que marca a linha divisória entre um ano e outro, João partiu rumo à cidade.
Juntou as últimas economias. Pela conta que fez naquele embornal surrado havia pouco mais de alguns trocados.
Passou em algumas lojas na intenção de renovar o guarda-roupa. As únicas trocas de roupa que restavam no armário eram uma cueca remendada e uma calça desbotada.
Foi atendido por uma mocinha de olhos puxados. Que, antevendo que daquele mato não sairia coelho atendeu-o com o maior desdém.
João saiu da loja levando uma calça marrom. E uma cueca da mesma cor.
Uma vez em casa, já que tudo que tinha no embornal havia acabado, comprovou que tanto a calça, quanto a cueca, não serviram.
E voltou à cidade pensando trocar pelo número maior.
A mesma moça que o atendeu antes recusou a troca. Sob a alegação que cueca não pode ser trocada. Depois de usada.
João saiu da loja da mesma forma com que entrou. Com a mercadoria nas mãos. No mesmo embrulho de antes. Sentindo-se embrulhado pela má fé das pessoas.
Sem nenhum dinheiro no bolso tinha de voltar à roça. Como fazer? Ir a pé, nem pensar. Eram mais de vinte quilômetros. Distância que não poderia vencer mesmo sendo acostumado a caminhar.
Por sorte, ou seria azar, naquela hora, já era tarde da noite, passou um pseudo-amigo que prometeu deixá-lo perto de sua roça.
João do Povo, sem outra opção, aceitou o amável convite.
Foi quando, no meio do caminho, o motorista acabou por levar o único pertence que restava ao pobre João. A esperança em dias melhores.
João foi deixado à revelia no meio da estrada. Numa escuridão de fazer inveja aos assombrações.
Caminhou por alguns quilômetros. Por sorte tinha uma lanterninha que logo acabou a pilha. Caiu num buraco fundo. Quebrando a perna direita.
Na manhã seguinte, véspera de ano novo, por fim veio o socorro. João do Povo foi levado a um hospital. E esperou mais de seis meses para encanar a perna. Que ficou torta pro lado de fora. Quase o impedindo de caminhar.
João passou o dia de ano mais uma vez solitário. Ao longe via os fogos iluminando o céu estrelado.
Para aumentar ainda mais o azar, um daqueles rojões acertou direto a sua casinha modesta. Teve de sair às pressas. Com o corpo todo chamuscado. Manquitolando que nem cabrito de perna torta.
Foi quando se lembrou da infância pobre. A sua mãe dizia sempre, lembrando-se das agruras da vida: “João, meu filho, acabou-se o que era doce.”
Mas para o desditoso João melhor seria acabar o que já era azedo.
E foi o que aconteceu durante todo o ano novo.