Fim de ano de um Zé Mané Qualquer

O sol queimava a terra com seu calor de fazer fritar miolos.

Nenhures nuvem cinzenta se mostrava no alto. O céu azul, o calor excessivo, era um convite irrecusável a que as pessoas se mantivessem à sombra.

Mas, quem diria que o pobre Zé Mané, operário de uma fábrica de autopeças, poderia ficar na cama, com o ar condicionado ao máximo, naquele verão de começo que mais parecia a antessala do inferno.

Ele via de sempre acordava em plena madrugada. Vivia solitário numa casinha alugada. Pagava religiosamente em dia o aluguel. Era cumpridor dos seus deveres. Operário modelo. Por todos considerado exemplo de bom funcionário.

Naquele ano de dois mil e dezoito Zé Mané completava cinquenta anos de vida. Quase todos eles dedicados ao trabalho.

Nascido na Paraíba, numa cidadezinha perdida onde Judas esqueceu o terno, aos menos de dezesseis anos fugiu de casa. O padrasto o maltratava. Deixava o menino passar fome. Tudo sob os olhos complacentes da mãe verdadeira. A qual era da mesma forma judiada pelo amante. Um sujeito de maus bofes. Que vivia sempre embriagado.

De carona num velho ônibus, meio escondido entre as bagagens, Zezinho chegou a São Paulo não se sabe como. Ali passou fome. Morou na rua nos primeiros anos.

Ainda se lembra, quanto contava com quase dezoito, numa batida da polícia foi levado ao juizado de menores, por um crime do qual foi mero circunstante.

Ali passou os piores dias de sua vidinha errática. Aprendeu que cadeia não é lugar de pessoas boas.

Saiu do xilindró sem saber para onde ir. Não tinha estudos. Só ficou na escola até os dez anos. Mal aprendeu a assinar o nome.

Uma vez em São Paulo, depois de se ver livre daquela cela escura, Zé Mané prometeu a si mesmo mudar de vida. Se é que aquilo podia ser chamado de vida. Em verdade era um sofrimento só.

Depois de completados vinte anos Zé foi admitido naquela fábrica de autopeças.

Foi lá que Zé pensou finalmente mudar o próprio destino. Era dedicado ao trabalho. Quase um trabalhador compulsivo.

Tudo caminhava às mil maravilhas durante os primeiros anos. Zé era considerado um dos melhores operários daquela fábrica. Só que, nem tudo que começou bom continua para sempre um mar de rosas.

A fabriqueta, como outras do ramo, não sobreviveu à crise que se aprofundou no final do ano.

Teve de demitir funcionários em pleno Dezembro. Justamente durante as festas de final de ano Zé se viu desempregado.

As dívidas começaram a azucrinar a cabecinha do pobre Zé. Passou a atrasar o aluguel. Nunca, até então, Zé Mané deixou de pagar qualquer prestação. Era sempre pontual com seus compromissos. Mas, daquela vez primeira, não teve como saldar o débito com o proprietário daquela casinha modesta, num bairro da periferia.

Foi despejado por injusta causa. Passou a morar na rua.

Passava o dia inteiro procurando outro serviço. Mas não era fácil. Todos os lugares procurados exibiam na porta o mesmo cartaz: “não há vagas. Volte no ano que vem”.

As agruras do pobre Zé não tinham fim. Era ainda jovem. A saúde era o único bem que possuía.

Aos trinta anos, completos naquele janeiro, de repente se viu novamente empregado. O novo trabalho durou menos que a florada dos ipês. Não por que não fosse dedicado. O mesmo detalhe novamente o deixou a ver navios. A padaria faliu da mesma maneira que a fábrica onde trabalhou nos primeiros anos. E Zé dali saiu sem receber nem a metade do que deveria.

Passou anos a fio esperando a sorte mudar. Aos quase quarenta nada de novo para o Zé Mané se transformou. Continuou a sua peregrinação em busca de trabalho. Mas nenhuma oportunidade a ele apareceu.

Dizem que ano novo vida nova.

Pena que nem tudo que reluz se torna dourado.

Zé Mané continuou sua sina de desempregado. Fazia bicos para matar a fome. Como não sabia roubar, apesar de a tentação ser grande, ele continuou a vida na mesma estrada que sempre trilhou.

Aos quase cinquenta anos, de novo dezembro chegou. Morando na rua, vendo as luzes de Natal brilharem como pirilampos em noite de lua, Zé teve um sonho bom.

Sonhou que para ele a sorte mudou. Recuperou o emprego naquela fábrica de autopeças. Foi subindo de posto. Até chegar a gerente de produção.

Acordou debaixo de um viaduto. E como choveu durante a noite. Levantou todo molhado. Com todos os pertences mofados.

Não se amofinou com a malsinada sorte. De novo foi em busca de trabalho.

Passou dias e noites a cata de emprego. Até ser novamente preso por vagabundagem.

Deixou a cadeia uma semana depois. Foi então que a vida para ele teve um fim inesperado.

Perambulando a esmo pelas ruas, daquela cidade desumana, no meio da noite, quando tentava dormir, um grupelho de rapazolas, todos tatuados, acharam por bem botar fogo no pobre Zé Mané      Qualquer.

Dele só restaram cinzas sobre cinzas. Um monte delas. Foi sepultado numa cova rasa. Sem ao menos saber quem seria aquele pobre sujeito.  Mais uma morte das tantas que acontecem no dia após dia.

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