Desde cedo, menino ainda, sempre me assaltava uma curiosidade enorme, ávido por conhecer um cadinho de cada coisa.
Ainda me lembro, na escola, de quando levantava a mão, atento às explicações da professora, principalmente na aula de aritmética, quantos serão dez vezes dez, quanto iria dar a soma de vinte mais cinquenta, e outras questões complicadas para mim, e menos para quem nos ensinava o quanto a vida nos reserva a aprender.
Pena que a gente tenha de crescer. E a criança que morava dentro da gente um dia sofreria uma metamorfose. Tornar-se-ia adulto, para depois ficar velho, este mesmo ancião que deixaria a vida sem saber o por que.
São tantas coisas que gostaria de saber, que seria quase impossível descobrir quantas eram.
Só mais tarde, insatisfeita a minha curiosidade, depreendi que a matemática não era minha preferida. Os números não me seduziam. Pelas letras tinha o maior apreço. Como até nos dias de hoje acontece. Deixo as contas para a minha querida parceira. Ela sabe como ninguém se dedicar aos números. Faz cada conta de arrepiar os cabelos. Dispensa calculadoras. Cada um com sua tendência. Felizmente a vida é assim.
A curiosidade sempre fez parte de mim.
Até hoje, perdida a mocidade, ainda não me sinto velho, um tanto gasto, quem sabe, o desejo de aprender nunca me deixou passar vontade.
Aprendo olhando os passarinhos que voam. Observando a chuva que cai. Vendo, maravilhado, a mãe novata embalando a criança que recém saiu das suas entranhas. Para ver um mundo cada vez mais difícil de viver.
Até hoje, quase completando os setenta, continuo naquele desejo insano de sempre saber.
Até agora, nos dias presentes, não sei de onde vêm os brinquedos que são deixados na árvore de Natal. Quem os trouxe? E quem pagou por eles? São questões que me intrigam desde quando me descobri gente.
E como uma mulher descobre por que motivo percebeu crescer barriga? Em criança mal sabia nada da gestação. Como nascem os bebês? Somente depois de grande aprendi.
Eram tantas dúvidas que me assaltavam que nem imaginava quantas seriam.
Por que razão temos de morrer? Se a vida é tão bela. Lutamos tanto, de meninos arteiros nos tornamos, de repente, adultos maiores, anciãos aposentados, e, mais uma vez desaparecemos, viramos apenas saudade dos que ficaram para traz.
Até hoje gostaria de saber a razão de a fruta madura, num átimo apodrece, cai do galho, e se transforma numa coisa pastosa, misturada a terra, de onde a arvorezinha produziu tantos frutos, e de repente morre. Da mesma forma que a gente se despede da terra.
Gostaria ainda de saber, naquela época de tantas indefinições, por que razão nossos pais partem para algum lugar especial, onde seria ele? Esta questão sempre me intrigou. Até hoje.
E como apreciaria descobrir, criança sempre ávida por aprender, por que razão, pra mim desconhecida, as pessoas envelhecem, ficam doentes, já que a saúde é um bem maior que se tem em vida?
Sempre tive a curiosidade de saber, por que motivo, para mim ignorado, a gente perde o viço, somos impedidos de caminhar pelas próprias pernas, nos tornamos velhos decrépitos, temos de ser ajudados por outros, a fazer aquilo que tanto nos encantava nos velhos tempos.
Gostaria de saber ainda, qual a razão, se é que ela existe, tantas pessoas passam necessidades, e outras, na contramão da vida, têm tudo que precisam e até mais, se isso é justo, ou mera conclusão de quem pensa tanto, e não chega a decisão do que é certo ou errado?
E como gostaria de saber, até hoje, por que certos pais têm de enterrar os filhos, quando a ordem natural das coisas é o inverso deste fato consumado, que acaba por consumir a alegria dos desafortunados pais.
Apreciaria conhecer, sempre me assaltou a curiosidade, por que tanta gente esmolando pelas ruas, neste país onde tantos tem tanto, e muitos nada conseguem.
Gostaria ainda de saber, o motivo pra mim ignorado, por que tanta gente nasce com defeitos graves, e passam a vida inteira reféns da própria desventura, conquanto outros gozam de saúde a dar aos demais?
Estamos em tempos de festas de final de anos. Muitos lares são aquinhoados de felicidade. Muitos filhos, netos, ganham presentes. E tantas famílias desfrutam de um Natal carente. De recursos materiais. De carinho. De afeto. De tudo um pouco.
Já que gostaria de saber quase tudo, antes que meus desejos não possam ser postos a mostra, como seria bom se todos nós, seres viventes, antes que a morte nos venha buscar, desfrutássemos de oportunidades iguais. Se não totalmente equivalentes pelo menos não sofressem tanto. Neste final de ano gostaria de saber tantas coisas. Pena que não estarei mais aqui, de hoje para sempre.
Nunca esgotarei meu desejo de saber. Nem de aprender. Enquanto viver. Oxalá.