Às minhas colegas de trabalho

Fim de ano. Entrada de outro.

Espero, com o coração cheio de esperança, que dois mil e dezenove seja melhor que o recém-enterrado.

Sepultar anos faz parte da gente desde o nascimento até que a morte chegue. A gente morre. Os anos se vão com a velocidade com que o tempo passa.

Ontem éramos crianças. De repente nos tornamos jovens. De jovens meninos viramos adultos. De trabalhadores responsáveis nos tornamos velhos anciãos. Depois nos aposentamos. Depois de longos anos de trabalho duro. A morte é consequência inevitável de estarmos vivos. Devemos encará-la naturalmente. O que seria deste planeta ainda habitável se não nos despedíssemos da terra? Aqui não caberiam tantas pessoas. A substituição de gente velha por recém-natos é fato por demais comprovado. Desnecessário se torna comprovar o óbvio.

Da mesma forma que ontem fez sol o dia de hoje amanheceu cinzento. Uma nesga de sol se deixa ver na linha do horizonte. Ao longe percebo que mais tarde vai chover como choveu durante a noite.

Ainda me lembro de quando aqui cheguei. Tudo aconteceu no distante um mil novecentos e setenta e sete. Precisamente no mês de maio comecei meus passos pela nobre arte da medicina. Quantas noites indormidas. Quantos sonhos desfeitos. Quantos pacientes atendidos. Quantas operações realizadas. Quantos pacientes curados. Quantos daqui saíram satisfeitos com o tratamento a eles oferecido. E quantos deles vieram a morrer em minhas mãos. Não por desejar. E sim por que tinha de acontecer.

Todo o meu sucesso devo a elas. Minhas companheiras de trabalho.

Primeiro dedico este texto às enfermeiras que ainda hoje me acompanham. Seja no hospital. Seja nas unidades de saúde onde exerço a medicina. As secretárias tão dedicadas que recebem os pacientes na antessala da minha. Aos funcionários da secretaria de saúde por vezes mal interpretados. Muitas vezes achincalhados por pessoas que atribuem a eles as falhas do sistema. Como se eles fossem responsáveis pela saúde capenga que o país oferece.

Seja o posto de saúde perto, pra onde vou no começo de semana, seja no ambulatório de onde me despeço no dia de amanhã para gozar as férias merecidas, ou no hospital nas vizinhanças do meu consultório, às minhas companheiras de trabalho o meu muito obrigado.

São vocês que me sustentam nas horas poucas quando ali atendo. Bem sei que, com as ferramentas exíguas de que sou dotado pouco posso fazer. Gostaria de fazer mais. Pena que o mesmo sistema não permite que consiga aliviar quem me procura com a mesma capacidade da minha clínica privada. Pelo sistema único de saúde, falho, não consigo, nem que deseje, operar nem um milésimo dos casos complexos que ali aparecem. Apenas sou capaz de fazer diagnósticos. Para a seguir encaminhar os mesmos pacientes a outro lugar por vezes distante da minha cidade.

Às minhas colegas de trabalho o meu afetuoso abraço. Entrarei em férias no serviço público de hoje a dois dias. Só não ano vindouro vou encontrá-las de novo. Confesso que sentirei saudades.

A vocês, enfermeiras, técnicas, funcionários capacitados, gente da prateleira de cima, por vezes mal interpretados, exaustos depois de jornadas extenuantes, mais uma vez meus sinceros agradecimentos. Sem vocês o que seria de mim?

Sem o concurso de suas mãos amigas não poderia fazer nem undécimo do que tenho feito. Sem a ajuda da minha secretária, a especial Zaninha, uma faz tudo, que aniversaria no próximo dia vinte e um, eu nem estaria aqui. Logo mais ela entra em férias. E, na sua ausência, aqui estarei incapacitado de fazer uma modesta operação de fimose. Nem ao menos sei passar uma ficha de um paciente qualquer. Esterilizar os instrumentos nem de longe conseguiria. Quanto mais passar horas vazias atendendo ao telefone. O que seria de mim sem a sua presença amiga?

Logo mais estarei no ambulatório. Vou de ônibus. Caso fosse mais perto iria caminhando. Ali, no dia de amanhã, vou me despedir das amigas. Colegas de ofícios. Pessoas queridas. Por elas tenho uma grande amizade. Além de um respeito enorme.

No mês de janeiro, que se avizinha, ano novo, sentirei a falta das minhas colegas de trabalho. Mas me conforta saber que em fevereiro próximo estaremos juntos de novo. Pra outra jornada de trabalho.

A todas elas, caríssimas colegas de trabalho, desejo, de coração aberto, todas as venturas possíveis. Não vou declinar o nome de todas. Seria descortesia me esquecer de qualquer que fosse. E como são todas importantes, vitais para o meu viver, estendo, nesta crônica de hoje cedo, meus desejos sinceros de felicidade plena. Que sua passagem de ano seja tão feliz como espero ser a minha. A todas vocês o meu muito obrigado.

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