Só tenho a agradecer

Hoje, dezoito de dezembro, mês especial, pois congrega duas datas importantes: meu desaniversario e de outra criança, nascida na véspera do Natal.

O sol entra em saraivadas pela janela do meu consultório. Moro de pouco ali. Naquele beco, meio escondido entre espigões, num pequeno prédio construído por meu genro. Ali está parte de minha família. A outra, a primeira que me deu origem, hoje mora num lugar especial. Neste céu azul. De uma azulice infinita. Salvo meu irmão que vive onde passei minha juventude. Quando me graduei em medicina.

Em pouco menos de uma semana comemora-se o nascimento de Cristo. Data quando o comércio se locupleta. Enche as burras de dinheiro. Mas a maioria se esquece do principal. De louvar a figura daquele menino. Nascido numa estrebaria. Entre bichos mansos, apenas sob a tutela de seus pais. Sob olhares enternecidos de estrelas, que no céu escuro admiram o nascimento de Deus filho. Que, mais tarde, se deixou imolar na cruz na intenção generosa de salvar a humanidade.

Creio que Ele não conseguiu.  Pois o homem, feito a sua imagem e semelhança, mais se parece à antítese. De tanto mal que tem feito a este planeta tão lindo. Cada vez mais conspurcado pelos dejetos atirados ao léu.

De quando em vez paro na igreja principal da minha querida cidade, quando ela está vazia. Ali, em companhia de santos, imagens sacras, oro. Peço por todos nos quais acredito. Pela saúde da minha família, por todos aqueles desprovidos de companhia, pelos pedintes que abundam nestes tempos difíceis, e, por vezes me esqueço de agradecer tantas graças conquistadas, nestes quase setenta anos de vida.

Peço para que a saúde não me abandone. Que minha vida se estenda por muitos anos. Que pelo menos possa acompanhar meus netos. Até que eles de criança se tornem jovens com um futuro promissor. Que possa continuar a ser um Papai Noel quase ideal. Que não apenas presenteie os que me são caros. Bem como continuar a ser um médico dedicado. Até quando?

Não quero saber.

Por vezes me esqueço de agradecer. E são tantos os motivos para ficar de joelhos. Ali, naquele banco duro, da igreja onde de vez em quando passo.

Agradeço pelos anos todos de vida. Pela medicina, carreira tão linda a qual elegi. Tomara ela ainda faça parte de mim. Por anos e anos a fio.

Às vezes me esqueço de agradecer os fios de cabelos brancos que ainda me restam. A barba nevada que recobre minha face. A aparência que por vezes ilude aos que me perguntam a idade. Quantas vezes as pessoas, quando as informo que tenho quase setenta anos ficam admiradas pela forma com que me apresento.

Agradeço, de coração, aos pais que me presentearam com a vida. Ao meu pai, meu exemplo. A minha mãe, que de onde eles estiveram que continuem a orar por nós. Todos nós, filhos, bisnetos, e outros aparentados enfermos, que estão prestes a subir ao céu.

Só tenho a agradecer, neste mês de dezembro, mês quando datas importantes acontecem, que continuemos, no ano vindouro, a desfrutar da saúde que hoje somos brindados.

Agradeço, de joelhos dobrados, a inspiração que me cavouca tanto. Que continue com a mesma clarividência de agora. Com a mesma disposição de acordar cedo. De admirar a natureza tão linda que se deixa ver no sopé da serra.

Só tenho a reverenciar a imagem do Senhor Meu Deus. Aquele que não se deixa ver mas está em toda parte. Nos mínimos detalhes o vejo. Na poeira que se levanta pelo ar. Na chuva que molha e fertiliza a terra. Nas lágrimas derramadas pela mãe quando nasce o filho. No sorriso da criança quando recebe um presente de Natal.

Agradeço, são tantos os motivos de agradecimento, que se torna quase impossível fazer uma lista de todos eles.

Dezembro logo fica no passado. Janeiro nos acena com um ano novo. Que as esperanças, na passagem de ano se renovem. Que todos não se esqueçam de agradecer ao Deus Pai. Tantas graças alcançadas.

Ao final, deste texto escrito na intenção de agradecer, agradeço a todos vocês, amigos, desconhecidos, simpatizantes ou não, que continuem a viver em plenitude. A vida merece ser vivida com alegria. A felicidade existe. Por tudo isso, mais uma vez agradeço, a vida que tenho levado. Por quantos anos mais? Nem desejo saber. Mas só me resta agradecer. O prazer de ainda estar vivo.

 

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