Tião Porteira e o elevador

Para ir à cidade era um custo danado.

Também, devido às tarefas rotineiras, infindáveis e duras de lidar, o velho Tião, apelidado de porteira por saber fazê-las com esmero, o tempo sempre era escasso.

Acordar ao cantar das maritacas, passar uma aguinha gelada na cara sempre com a barba por fazer, tomar um café requentado nas brasas do fogão à lenha que ainda crepitava, deixar a casinha tosca faça chuva ou se esparrame o sol, e, partir rumo ao curral onde o esperavam famintas duas dúzias de vacas tatu- com- cobra, as quais escondiam o leite para os bezerros e mal enchiam um latão pela metade.

Mesmo assim o velho Tião era feliz e mal escondia a sua satisfação. Era comum vê-lo sorrindo mesmo nas adversidades. E como era lindo vê-lo mostrar a banguelice dois mil e um, já que faltavam quase todos os dentes de cima. Apenas duas presas pontudas ainda se salvaram da perda dos demais dentes. A boca do velho Tião comia de tudo um pouco. Mesmo mordendo como podia com as gengivas. As espigas de milho duras eram trituradas como se fosse uma canja de galinha. E nada o impedia de sorrir. Nem de comer. Assim como a vida para ele dura, era considerada leve demais. Dado a sua capacidade imensa de ser feliz.

O velho Tião Porteira passava meses sem ter de ir à cidade. Vivia bem. Com a despensa cheia de coisas que apreciava. Na roça produzia de tudo um pouco.

Plantava milho, mandiocas macias sempre eram colhidas na horta de couve. Arroz dava com gosto numa baixada beira rio. Feijão sempre colhia, no tempo certo. Para cozinhar a carne de porco, guardada numa lata forrada com banha do capado gordo, sacrificado por justa causa no Natal passado, era usado sempre o mesmo ingrediente. Nunca na casa do velho Tião se usou aquele óleo vegetal. O qual dizem fazer bem para a saúde. Aliás, saúde era outra virtude do simpático Tião.

Aos quase setenta anos nunca foi a um médico. Nem ao menos para fazer um exame de rotina.

Pela televisão foi informado de que naquele mês, novembro, era o mês de fazer o tal exame de próstata. E que na sua idade o tal câncer era comum. Fácil de diagnosticar, e, caso no começo mais fácil ainda de se curar.

Foi então que o valente Tião resolveu ir à cidade. Deixou as vacas na companhia delas mesmas. Depois da ordenha da manhã Tião pegou carona no velho caminhão leiteiro.

Por sorte a boleia estava vazia. Caso contrário teria de ir sacolejando entre os latões de leite.

Teve a consulta marcada com um especialista em doenças das vias urinárias. Chegou ao prédio onde o médico atendia pontualmente antes da hora.

Era bem cedo da manhã. O relógio mostrava bem antes das sete. O sol brilhava, depois de uma chuvinha apetitosa que caiu durante a noite toda.

Nunca, em seus quase setenta anos, Tião havia entrado num elevador.

Aquele pequeno quartinho, sem janelas, sem vista para o exterior, causava-lhe imenso dissabor misturado ao temor.

Como naquela hora temprana não havia nenhuma vivalma para acompanhá-lo, apenas o porteiro do edifício se mostrava presente, Tião fechou os olhos, fez o sinal da cruz, e entrou porta adentro logo antes que ela se fechasse novamente.

Instruído pelo porteiro, já que não havia ascensorista, Tião apertou a tecla do sétimo andar. Uma voz, vinda não se sabe donde, falou macio: “por favor, desencoste da porta, para que o elevador suba até onde o senhor deseja ir”.

Tião tomou-se de um pavor inusitado. Tremia do andar de baixo até o último fio de cabelo.

Aquela coisa subiu sacolejando mais do que os velhos latões de leite da carroceria do caminhão.

A cada andar alcançado a tal moça escondida não se sabe onde dizia sempre, com aquela vozinha estridente: “passamos pelo sexto andar. O próximo vai ser o sétimo”.

E o velho Tião suava de empapar a cueca. Mal chegava a hora de apear da tal casinha que sobe e desce.

Ao chegar ao andar da consulta mais um acidente de percurso se deu com o velho Tião. A porta do tal elevador recusou-se a abrir. E a tal moça escondida nem deu a voz da desgraça. Emudeceu-se de vez. Talvez com medo de a coisa cair.

Foi preciso chamar o corpo de bombeiro para acudir o apavorado Tião. Lá dentro encontraram quase um defunto morto. Deitado no fundo daquela casinha apertada. Lívido, com a palidez cadavérica, quase já em extrema- unção.

Não precisa dizer que a consulta foi adiada. Para o dia de São Nunca. Se é que ele existe.

Tião, depois de ressuscitado, de passar dois dias e duas noites num hospital, chegou à roca, abriu a velha porteira, que de tão velha acabou despencando ao chão.

E jurou, de pés juntos, que nunca mais entraria de novo num elevador. Melhor cair da porteira, do que naquele fosso profundo, com ou seu a companhia daquela moça escondida num lugar mais escuro do que uma noite sem estrelas.

E contam, nas cercanias, que o velho Tião morreu cumprindo a sua promessa. Nunca mais foi ter à cidade.  Foi encontrado morto debaixo da mesma porteira. Que acabou desmoronando de tão velha.

No seu epitáfio uma inscrição dizia: “eu prefiro morrer soterrado debaixo de uma porteira do que na escuridão do fosso de um elevador qualquer”.

 

 

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