Black Friday do Tião Sem Sorte

Aquela sexta-feira, vinte e três de novembro, amanheceu chuvosa na roça do desafortunado Tião Sem Sorte.

A melhor vaca do curral desapareceu como se fosse engolida pelo nevoeiro. Uma névoa densa mal permitia enxergar um palmo adiante do nariz. E que nariz portentoso exibia aquele homem valente, que não tinha o costume de regatear uma boa briga. Diziam, nos arrabaldes, que quando Tião era desafiado a uma querela qualquer, mugia como um boi ao ver a vaca no cio, esfregava o chão com sua botina gasta na sola, e partia pra cima do incauto, que se não corresse a pernas desfraldadas corria o risco de comer capim pela raiz.

Tião tudo tinha para ser feliz. E bem sabia da sua capacidade de mostrar a dentição imperfeita. Faltavam alguns dentes da frente. Mas não o impedia de escancarar as gengivas, quando um vizinho de pasto contava uma piada, mais velha do que a porteira que ameaçava ruir na próxima estação chuvosa.

Aos trancos e solavancos Tião conseguiu juntar algumas economias no velho baú. Só que, quando se preparava para ir à cidade, a fim de fazer as compras do mês, percebeu, olhos sonolentos, que uma ninhada de ratos gordos acabara de fazer uma lauta refeição com aquelas notas de onde rescendia mofo, para não dizer coisa pior.

Mesmo assim Tião não desanimou. Arregaçou as mangas puídas pelo desmazelo e se lançou ao trabalho com redobrado furor.

Conseguiu amealhar uma importância de dar inveja a um grande produtor de café. Aliás, café só lhe apetecia na xícara. A produção de leite era o que lhe convinha. Em sua fazendola pequena, onde quando a vaca se deitava deixava os chifres a descoberto, do lado de fora da cerca de arame farpado, precisando reparos com a mesma premência de quando as chuvas se avizinham, em nuvens cinzentas, prestes a desabarem em forma de pingos gordos, antecipados por faíscas que riscavam o céu.

Tião mal tinha tempo de assistir a televisão. Era um aparelho quase em desuso. Naquela telona pequena, quando chuviscava, mal se podiam ver as figuras que fingiam que apareciam durante a novela das oito. Quem em verdade nunca começava antes das nove e meia.

Foi na quinta passada, quando se preparava para dormir, antes de desligar o aparelho, viu, olhos sonolentos, a notícia de uma tal de Black Friday, que teria início no dia seguinte.

Como precisava de uma geladeira nova, a que possuía de vez em sempre descongelava, e de uma televisão novinha, preparou-se, depois da ordenha da manhã, para ir à cidade comprar aqueles utensílios que mais carecia.

Juntou todas as economias amoitadas no fundo do velho baú. Era uma importância significativa. Quase cinco mil reais em notas de dez.

Como a quantidade de dinheiro fazia um gordo volume Tião resolveu, aconselhado por um amigo da onça, guardar tudo numa mala tipo aquela chamada de Catarina.

Ela nunca tinha sido usada. Era novinha da silva. Embora tenha sido comprada há anos distantes da data considerada.

Tião, para não perder a condução, acordou mais cedo do que o costume. Mal o galo cantou e Tião se fez de pé. Tirou o leite da manhã. Deixou as vacas fartando-se no cocho cheio de milho picado. E, de carona no velho caminhão leiteiro, desembarcou na cidade perto das sete da manhã.

Como a loja onde gostaria de fazer as compra ficava bem longe do ponto onde o caminhão o deixou acabou pegando um taxi. Foram menos de dez minutos de viagem. Foi a primeira vez que alguém tentou levar vantagem no bolso recheado do Tião Sem Sorte. O taxista, ao perceber que era um matuto da roça, cobrou quase duzentos reais. Por uma corrida que mal valeria a quarta parte desta importância. Tião pechinchou, regateou, resmungou, e acabou pagando a metade do cobrado. Mesmo assim contrariado.

À porta da loja já se avistava uma fila de dar inveja a quem entende de fila. Ela não apenas dobrava quarteirão, como dava laço na torre da igreja.

Tião, movido pela paciência que não tinha, esperou quase duas horas para entrar na loja de departamento. A televisão estava em verdade em boa oferta. De quase três mil reais, naquela sexta custava apenas e tão somente menos de dois mil. Tudo em suaves prestações, a se perderem de vista.

Quando chegou a vez do Tião de pagar o produto mais uma fila enorme o esperava. Até que o caixa contasse dois mil reais em notas de dez quase duas horas se passaram. E o resto da fila bufava no cangote paciencioso do já injuriado Tião.

Levando a caixa da televisão nos costados era a vez de comprar a tal geladeira. Mais uma fila. Mais uma longa espera. De posse da nota de pagamento Tião se preparou para agilizar a encomenda. O refrigerador estava em falta na loja. A vendedora, uma solícita mocinha, já exibindo sinais de cansaço, prometeu que iriam lhe entregar a compra de hoje a uma semana.

Tião, como não tinha como levar a geladeira nos braços, aceitou de bom grado a oferta. E partiu, fazendo o sinal da cruz, daquele furdunço danado.

Dentro da mala Catarina ainda sobraram alguns trocados. Como as primeiras necessidades haviam sido satisfeitas, Tião resolveu passar por outra loja. Mais fila, mais consumidores deslumbrados. Ali Tião Sem Sorte adquiriu um ferro de passar. Mais uma cafeteira que prometia fazer café sozinha.

Uma vez tudo empacotado, compras findas, Tião partiu rumo a sua rocinha encantada. Desta vez não foi de taxi. Foi de lotação mesmo. Enfiado no meio de uma multidão de pessoas, quase todas elas vindas da mesma loja.

Foi difícil conseguir passar pela roleta com aquela televisão enorme. Pagou a passagem com uma nota de dez. Nem viu a cor do troco.

Dentro da Catarina ainda restava quase a metade da importância levada.

Uma vez na estrada caiu uma chuva de encher açudes até o gargalo. A velha lotação atolou no charco alagadiço em que se tornou a estradinha rural.

Foi preciso chegar a casa de carona num carro de boi. Por sorte o compadre Mané passava naquele instante de aflição.

Uma vez no lar, doce lar, Tião Sem Sorte ainda teve de enfrentar mais um percalço. Ah!, se fosse apenas um…

A televisão novinha, ainda na caixa, por causa da chuva acabou se molhando todinha. E ficou avariada a um canto. Sem nunca mais funcionar. A geladeira foi entregue no prazo prometido. Só que, dado a viagem, por estradas esburacadas, o motor ficou injuriado. E a responsável, ao ser consultada, recusou-se a trocar o produto, sob a alegação de o defeito ser devido ao transporte, e ao mau uso.

Tião Sem Sorte, ainda não refeito do descontentamento, vendo a Catarina vazia, desconjurou a tal Black Friday. E que nunca mais voltaria a cidade. Principalmente durante as liquidações como aquela.

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