Tião Porteira adorava aquele pedaço de chão.
Era quase um palmo de terra, enfiado num lugar esquecido, onde quem passa logo volta, pelo mesmo caminho errado.
Mesmo assim Tião era feliz e bem o sabia.
Nasceu e cresceu na roça. Desde cedo aprendeu o ofício com o pai, herança do avô, pelo singelo motivo de não ter tido pra quem deixar aquela pequena rocinha, bem que gostaria de passá-la adiante, por falta de pretendente tudo aquilo acabou ficando para os descendentes.
O pai de Tião faltou cedo.
Num dia de sol a pino, ao carpir uma roça de milho, em ponto de pendoar, eis que uma cobra peçonhenta picou-lhe o calcanhar. A agonia do Seu Sebastião, progenitor do atual Tião Porteira, pouco durou. Morreu antes que o padre lhe desse a extrema-unção.
Ao sepultamento compareceram alguns gatos pingados. Todos embriagados. Que disputavam mão a mão a alça do caixão.
Tião cresceu sem nenhum estudo. A velha escolinha rural, reduzida a um monte de cinzas, acabou pegando fogo por causa de uma guimba de cigarro, atirada por um desavisado, que por ali passou e voltou sem saber a tragédia que havia causado.
Aos vinte anos Tião pensou acabar com a solidão. Vivendo entre vacas, galinhas , porcos grunhentos, sem tempo para o descanso, por ali passou uma linda moçoila com intenção de casamento. Tião era virgem de mulher até então. A primeira experiência com o quentume de uma fêmea o incidente aconteceu com uma égua cupinzeira.
Acontece, para infelicidade do pudico Sebastião, assim que tentou montar a égua, de sua estimação, a danada desferiu-lhe um coice naquele lugar escondido entre as pernas, tão forte que foi, que acabou ofendendo-lhe não apenas a dignidade bem como a fertilidade.
Mesmo assim Tião se casou com a primeira mulher que apareceu. Pena que o romance durou menos que a florada dos ipês.
Dois meses depois a experimentada rameira escafedeu-se com o motorista do caminhão leiteiro. E nunca mais deu as caras naquele lugar.
Tião passou tempos sem ver a luz do sol. Entrou numa depressão profunda.
Até um dia quando, depois de uma chuva criadeira, quando Tião se levantou, resolveu sair de casa, ainda magoado com o abandono, a melhor vaca do curral pariu uma linda bezerrinha. Foi o alento que trouxe de novo a vida ao desencantado Sebastião.
Refeito da solidão, de novo Tião tentou refazer a vida desfeita desde a separação.
Arregaçou as mangas e foi com renovado vigor ao trabalho. Talvez fosse por ele, e nele, que a vida lhe sorriria novamente.
No dia seguinte amanheceu um sol de cegar os olhos. Tião, madrugão que sempre foi, acordou com as esperanças renovadas.
Era hora de voltar a viver em intensidade plena. E nunca mais pensar em morrer. Como pensou naquele dia quando a mulher se foi.
De mãos preparadas ao trabalho duro Tião foi ao curral ordenhar as vacas. Eram quase vinte a serem ordenhadas. A renda do leite não era lá estas coisas. Mas as crias compensavam o esforço.
Naquela manhã despencou uma aguaceira danada. O caminhão leiteiro não conseguiu subir o morro atapetado de estrume fresco.
Foi preciso guinchá-lo até o cume. Graças ao bom Deus o trator do vizinho ajudou na empreitada.
O mês terminou como havia começado. A conta do banco foi ao fundo do poço. As parcas economias terminaram antes do final do mês.
A safra de milho não vingou. Por falta de chuva, na hora mais precisada, os pezinhos de milho não deram coisa que prestasse. O prejuízo do velho Tião foi às nuvens. De onde despencou uma chuvadonha do tamanho daquela que levou a arca de Noé.
A melhor vaca do curral acabou sendo furtada por um vizinho safado. A porcada faminta não deu preço na hora da venda.
Aos quase sessenta anos, já desesperançoso de tudo, e de todos, o velho Tião acabou passando adiante aquela rocinha prejuizenta. Só que quem comprou passou um cheque sem lastro. Que acabou voltando como o bumerangue que vai e costuma voltar.
Tião, atolado em dívidas, acabou se mudando pra cidade. Ali passou seus últimos dias. À espera de dias melhores. Pena que a esperança de viver em paz, até que lhe fechassem os olhos, acabou sendo desfeita. Por culpa de um destino ingrato o velho Tião morreu abandonado, num asilo de idosos, esquecido por todos, mesmo aqueles a quem considerava amigos.
Em seu epitáfio consta uma frase insólita: “aqui jaz o velho Tião. Aquele que viveu a vida inteira na esperança de dias melhores. E acabou morrendo na certeza que nem ela lhe resta mais”.