Há um tempo…

Segundo Shopenhauer, filósofo alemão deixou-nos como lembrança: “o homem comum preocupa-se em como passar o tempo; o homem talentoso em como usar bem esse tempo.”
O tempo perguntou ao seu parente de mesmo nome tempo. Quanto tempo nós temos? O tempo, dizendo-se sem tempo, olhou para os ponteiros do relógio, que corriam apressados no sentido adiante, e esses ponteirinhos com seus passinhos lépidos responderam, não sem antes perguntar ao ponteiro que marcava minutos, que por sua vez indagou ao outro apressadinho que corria mais depressa, aquele que indica os segundos, que sem parança continuou sua correlança sem saber pra onde iria, ao chegar ao fim dos seus dias, respirou profundamente, encheu seu pulmãozinho de ar purinho que infelizmente faltava nas grandes cidades e abundava nas rocinhas pequenininhas, e os ponteiros do relógio, na sua corrida ensandecida que não leva a lugar nenhum, decidiram, em comum acordo,que iriam mais devagar, sem divagar muito qual o futuro a eles estava reservado do outro lado da vida se é que ele existe.
Houve um tempo que não se ouvia nenhum ruído. Era um silêncio ensurdecedor que não nos causava dor nem sofrimento.
Nesses tempos bons, quando éramos crianças, não tínhamos nem um celular ou qualquer aparelhinho no qual perdíamos a noção de tempo. E nelezinho ficávamos horas perdidas em minutos que se debruçavam em segundos. Sem ao menos saber o que se passava no entorno e nem nos preocupávamos em dar retorno quando nossos pais nos repreendia e nos intimava, com aquele vozeirão zangado : “Toninho! Volta pra casa menino peralta! Não vês que já passou da hora de tomar seu banho e fazer as lições de casa”?
Há tempos os contratempos não me atazanam. Cheguei a uma idade em que deixei a vaidade dormir sem ao menos pentear o que restou dos meus cabelos tintos em neve. Tempos se vão em vão, lépidos eles já foram. Agora, no mais tardar da aurora da minha velhice, quando já não mais conto anos nem desenganos que foram tantos. Nem tento apressar a hora de minha partida. Sinto-me a vontade de dizer a quem quiser ouvir: “Não me leve a sério. Já passei da idade, deixei minha infância bem lá atrás. A juventude me olha com olhos recheados de nostalgia quando, no rela do jardim, ela andando lentamente no sentido das horas e eu no sentido contrário. Demo-nos as mãos depois daquela troca de olhares, enrabichei-me por elazinha e ela por mim. Desse namorico demos um passo acertado em direção a nossa união futura e dela não pretendo me desvencilhar por tempo nenhum a não ser que a morte nos separe, mas desejo que sejamos sepultados sob a mesma lápide que diz dizeres recheados de amor: “aqui jazem dois eternamente apaixonados e nem a morte deu conta de apartá-los em definitivo”.
Há temos me diplomei em medicina. E nos dias de agora nos ajuntamos num grupo de watsApp em boas prosas diuturnas. Embora quase não tenho visto meus colegas de turma olho no olho, salvo naquele encontro dos cinquenta anos quando completei setenta e cinco. Sinto-me unido aos que sobraram de nossa turma da UFMG dos idos anos de 1974. Aos que se foram unir-nos-emos num tempo incerto, decerto mostrando enormes saudades.
Houve um lapso de tempo em que fui mais relapso. Em criança não tinha pra mim tempo nem dia certo pra voltar pra casa. Passeei pela fase adulta mais compenetrado. Cumpridor dos meus deveres penso ter sido um bom pai de família. Espero que meus filhos e netos comprovem meu escrito. Já agora, uma vez nessa hora da minha velhice, tendo assoprado uma infinidade de velinhas, tantas que são, hoje temeroso de botar fogo na sala e provocar um fogaréu nas cortinas brancas e vê-las em cinzas.
Há tempos não tiro férias nem tenho pelos feriados em grande estima. Penso, isso que sempre faço e não me desfaço dos meus pensamentos, que sendo um trabalhador contumaz como meu amigo Tomaz sempre foi. Quando parar de trabalhar e me aposentar de vez encomendem o meu caixaozinho branco, não negro como uma noite escura nem cinzento cor que não é da minha predileção.
Houve um tempo que não ouvia muito bem. Tenho o costume de usar meu foninho de ouvido pregado nas minhas orelhas a escutar musiquinhas melodiosas pelo Spotify, daí a minha falta de audição nessas horas quando corro na esteira de uma academia. E penso que não escutar tudo que nas ruas nos dizem irados desafetos meus: “vai a merda” ou palavrão que o valha. Mas pra mim não tem mais valia já que não respondo àquela ofensa e simplesmente a ignoro.
Há inexatos alguns minutos que comecei a escrever esse texto de hoje cedo. Agora são seis e cinquenta e seis minutos desse dia quinze de junho.
As oito deixo de escrever crônicas e passo ao meu romance Ucrânia que já conta com cerca de cem páginas bem escritas. Ainda não sei qual será o seu desfecho se na mesma Ucrânia ou aqui mesmo em nosso Brasil. Ou ainda desconheço se a bela ucraniana por mim chamada Lyuba vai continuar amando seu soldado russo Dimitri ou se ele vai deixar de amá-la e focar seu amor a não menos bela espião russa de nome Micaela.
Há um tempão comecei a escrever.
Há um tempinho terminei essa crônica de agora cedo.
Espero que o tempo passe e eu não pare nunca de deixar escritas tantas coisas que mugem dentro do meu peito como vacas mugem de saudades das suas crias.

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