Como me da paz e tranquilidade ter esse lindo aquário aqui pertinho de mim.
Peixinhos multicores nadam parecendo um balé aquático como se fossem dançarinas afinadas dançando uma valsa dolente de qualquer compositor famoso do passado, tomo como exemplo o grande Ludwig van Beethoven, que ficou surdo não se sabe bem a razão.
Já me acompanha essa pequena piscina espelhada, onde não se pode nadar e somente observar seus moradores bons nadadores, há tantos anos que desconheço quantos eles somam.
Aquário como o meu, de água doce, quase não carece manutenção.
A minha querida e indispensável Zaninha, ama aqueles adoráveis peixinhos.
Tem por eles um amor como um dia dedicou ao seu Binho só que ele não correspondeu. E agora e em outras horas ela deixou sua própria casa aos seus cuidados e vive na companhia de sua amada mãe dona Maria. Uma senhora de riso fácil enviuvada do seu Pirunga que faz companhia ao Pirunguinha e sua amada Dóia lá no céu.
É elazinha quem cuida dos peixinhos do meu aquário. Ano a outro ela troca a sua água todinha. Faxina as pedras lodosas do fundo. Limpa as paredes de vidro com cautela para não quebrá-las causando uma verdadeira catástrofe e a morte não por afogamento. Já que peixes sabem nadar dentro d’água mas na terra firme sucumbem por falta de oxigênio.
Um dos meus peixinhos aquarianos notei que elezinho nadava de olhinhos fechados.
Batia sua cabecinha no vidro. Outros nem notavam a dificuldade imensa desse pobrezinho em se virar sozinho.
À hora de dar ração aos outros elezinho ficava no fundo a espera dos floquinhos de ração irem até sua boquinha.
Dois canibais cascudinhos, dissimulados e mais falsos que uma nota de mil dólares, escondiam-se entre as pedras à espreita de um dia, pela fragilidade do meu peixinho que se mostrou desprovido de visão, um dia infausto fazerem dele, o ceguinho, parte principal de suas refeições.
Mas ele sobrevivia de teimoso desgostoso que se mostrou com a falsidade daqueles que com ele moravam no meu aquário. A qualquer descuido e demonstração de fraqueza beleleu. Os cascudinhos, que cresceram mais que os outros, abocanhariam-no cru e frio e os demais eram levados vivos ao seu estômago e digeridos vivinhos de olhinhos abertos assustados com a nova condição de comida que não era a ração que eles dava de bom coração.
Esse ceguinho era espertinho como uma baratinha que escafedia ao ver a vassoura da dona de casa em sua direção.
Vivia sem enxergar o ambiente aquoso em que vivia a tempos idos.
Aprendeu estoicamente a enfrentar a escuridão com seus olhinhos baços e inexpressivos.
Tateava nadando às cegas dentro de sua morada aquariana.
Foi hoje, depois do vexame de ontem que nos deu a nossa seleção por ter empatado e quase perdido da seleção marroquina.
Imagina quando ela tiver de enfrentar a França ou a forte seleção espanhola ou outras de grosso calibre que fiasco vamos ver.
Aqui cheguei já bem tarde. De rotina quase amanheço por aqui mesmo.
Só não durmo no meu consultório por não ter uma cama de bom colchão onde me abrigar nessas noites frias.
A luzinha do meu aquário sempre fica acesa como eu.
Dei uma pitadinha de ração aos meus peixinhos.
Os floquinhos ficaram boiando na superfície. Outros foram ao fundo onde os esperava faminto o peixinho ceguinho. Escondidinho debaixo de uma pedra com medo dos cascudinhos predadores.
Deixei os demais comendo e puxei prosa com o ceguinho numa linguagem só nossa.
“E ai carinha? Tens se alimentado direito? Continua com medo de virar comida desses sanguessugas dos cascudos? Qualquer coisa se queixa comigo que sou dono desse aquário e de vocês todos viu? Outra coisa que me incomoda? Vosmecê, meu querido amiguinho, não tens vontade de voltar a enxergar? Soube, por um amigo veterinário especialista em doenças dos olhos dos peixes que tem uma cirurgia moderna que traz de volta a visão dos peixes inclusive os de aquário. Não queres voltar a ver de novo”?
O ceguinho, usando nesse dia um tapa olhos sem saber a razão já que ele não enxergava nadica de nada.
Olhou pra mim sem me ver e respondeu: “voltar a ver pra que? Ver outro vexame da nossa seleção? Ver ela perder de goleada de outros times mais fracos que o do Marrocos? Me ver ser comido vivo pelos dois cascudinhos? E continuar vendo as atrocidades que meus amigos da onça fazem entre eles? Tá ficando doido? Voltar a ver jamais. Prefiro continuar assim vivendo na escuridão a contemplar esse nosso mundão ser destruído por pessoas de mau coração”.
Hão de concordar comigo. O peixinho ceguinho tá coberto de razão.