Que bom se fôssemos todos Palhinhas

Entendia que palhinha fosse uma pequena palha, aquela coberta que recobre uma espiga de milho bem seca a deixar no paiol a fim alimentar galinhas e outros bichos mansinhos que vivem na roça e não se alimentam de arroz com feijão como nós.
Palha, não no diminutivo, penso não existir o palavrão, no bom sentido, quando se quer dizer uma palavra feia num momento insano de ira. Pois palhão meu corretor ortografia sublinha dizendo não existir.
Deixando os dois parágrafos acima nas linhas de cima. Vamos ao que interessa, nesse treze de junho quando já começou a copa do mundo de futebol e nosso país estréia hoje e espero que vença os marroquinos. E continue saindo vencedor e convença os torcedores que ainda nosso amado Brasil detém em seus gramados o melhor time de futebol de todo mundo.
Mas me permitam um aparte feito aqui no meu apartamento modesto no centro de nossa cidade de onde espero ficar morando até que a morte me separe desse ótimo local.
Tenho como conceito e respeito aqueles que pensam o contrário.
Que não se deve endeusar ícones de pés sujos de lama. Dizendo de outro modo; ídolos de pés de barro.
Aqui e em outros lugares dá-se valor indevido e rotula-se de heróis aqueles que nunca salvaram ninguém de um incêndio que toma conta de prédios inteiros e salvadores verdadeiros pulam de andares mais altos, arriscando suas vidas deixam crianças, idosos, a salvo dessas calamidades.
E como ganham além do necessário certas pessoas que a única virtude é terem nascido e crescido com grande habilidade na prática de futebol.
Não são todos que, por uma pitadinha de sorte e uma dose elevada de talento, passam de meros desconhecidos jogadores a famosíssimos peladeiros. Jogadores que não são somente os donos da bola como deuses sem asas que fazem golaços que merecem figurar nos píncaros da glória. E acabam ganhando fortunas incomparáveis que os elevam a mais que milionários. chegando a somas estratosféricas que ferem o decoro dos pobres trabalhadores corriqueiros que fazem mágica para sustentar suas famílias com um minguado salário mínimo que termina antes do começo do mês entrante.
Não é de hoje e nem de trasanteontem que conheço o tal Palhinha.
Já de tempos idos conhecia seu pai meu amigo Tião do Cervo plantador de verduras não para vender e sim para distribuir aos amigos e a quem precisa mais que ele.
Antes da represa do Funil um corguinho separava nossas terrinhas.
Era facinho chegar do outro lado onde ele e sua enorme família moravam. Era só pular aquele corguinho, evitar pisar nos lambarizinhos miúdos, e já estava na sua enorme horta de couve, onde beterrabas vermelhinhas se desmanchavam sem ferver muito a água.Onde cenourinhas amarelinhas eram disputadas pelos coelhos e as pestes das capivaras ladronas de coisas dos outros pois elas não produzem nadica de nada. E as mandiocas macias que meu amigo, pai do Palhinha e outros tantos filhos e netos, bis e tataras que ele nem conheceu, dava pena vê-las desmancharem-se na água morna nem carecia ser quente demais. E incontáveis outros tantos legumes que ele produzia que, se vendidos numa feira livre dariam um lucro enorme que poderia enricá-lo quase torná-lo um Elon Musk, mais rico ainda que esse cara que não sou eu.
O nosso Palhinha seguiu o exemplo do pai. Foi pelo mesmo caminho das verduras e acrescentou um leitinho branquinho não sei a razão de o leite ser branco saído das tetas de uma vaca preta.
O pai do admirável Palhinha morava numa gleba de terra penso de sua propriedade, embora imagine não ter a escritura que comprove ser sua.
Já o heróico Palhinha mora numa rocinha que nem dele é.
Uma propriedade alugada a peso douro na porteira da linda Ijaci.
Já pensaram em morar numa casinha caindo de tão velhinha? Com um só cômodo de banho, uma salinha onde mal cabe uma pulguinha nanica? E no resto, nunca entrei.
Palhinha, ajudado pela santa da sua mulher, irmã do Zé Peleja, de nome Cristina, acordam antes que a noite se transforme em dia. Ambos varam madrugadas indo aos canteiros de sua enorme horta. Deixam suas adoradas filhinhas dormindo, crianças lindas que são.
Enquanto o esforçado tirador de leite, ajudado por seu ajudante, que não tem tempo para nada. Não para de carpir sua horta, semear, plantar novas mudinhas de alface, rúcula e outras mais. A dedicada esposa desse herói anônimo, não famoso e endinheirado como certos Neymares cai cai, e outros mais…
Se honestidade fosse virtude Palhinha a tem a dar, vender e emprestar.
Ainda lhe tenho maior estima por outros seguidos motivos.
Pessoinha sensível capaz de verter água salina pelo canto dos olhos pela perda de um amigo ou até mesmo um reles desconhecido.
Gente da roça que não acredita em maldade e faz caridade mesmo não podendo tanto.
Pessoa confiável pra quem um aperto de mão vale mais que mil notas promissórias com firma reconhecida em cartório.
E não é somente ele pra quem tiro o boné do qual não faço uso.
Pros Tiãozinhos do Aristeu, pros Zés Pelejas da mesma maneira, pros Geraldos da dona Nega de cara feia e coração de ouro puro, pros Tons Zés, meu amigo palrador, que além de meu caseiro o tenho como amigo do peito, pros outros tantos mourejadores brasileiros, que sobrevivem de teimosos ganhando uma mixaria de um reles salário mínimo ou menos disso.
Que bom, seria maravilhoso, se grande parte de nós fôssemos uma pitadinha pequenininha desse tal de Palhinha. Nosso Brasil seria não apenas um país onde se plantando tudo dá.
E sim um paizão, que rima e se equivale a paisão. Um país que seria um pai pra todos nós. Que não fizesse distinção entre ricos e pobres. Todos seríamos iguais.
Meu caríssimo Palhinha, você é um exemplo a ser seguido. Um verdadeiro ícone que tem seus pés firmes fincados em nossa terra e em nosso coração.

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