Morreu quem não devia

Não tenho opinião formada, pois ainda não morri.
Seria por ordem de idade? Uma vez perdida a mocidade e tendo deixado a infância anos atrás?
Ou ainda por ter chegada a hora de nossa partida, não num ônibus que deixou a estação rodoviária rumo a uma cidade perto ou a outra de maior distância?
Certo que quem parte deixa saudades, uns mais outros menos.
Pessoas boas e corretas, sobretudo aquelas que passaram anos a fio assentadas a um banco de uma praça, sendo ouvidos e contando causos aos seus amigos chegados.
Aquelas como ele, que deixaram escritos em um ou dois livros, um dos quais comprei do próprio autor quando ele morava aqui pertinho num apartamento fincado nas barbas do alto da mesma praça centenária. Aquela principal da minha comunidade, qual o critério a ser escolhido pertinente aquele ou aqueloutro que deveria ou não morrer?
Bem me lembro de sua pessoa afável, doce, cumpridor dos seus deveres, de fala pausada e gentil, de quando durante um dos lançamentos de um livro de minha autoria ele ali compareceu vindo de taxi. Não sei se a outras efemérides como essa ele esteve presente.
Muitas vezes nos encontrávamos caminhando, eu apressado e ele a passos trôpegos e lentos.
Não perdia a oportunidade de cumprimentá-lo com a mesma cordialidade que ele distribuía aos seus incontáveis amigos.
Lembro-me ainda, com o peito cheinho de saudades antecipadas dele, a notícia do seu passamento me foi dada agorinha há pouco.
Descia a rua principal, nas proximidades da Santa Casa, ligeirinho como sempre, quando um velho amigo do qual fui vizinho no condomínio Jardim das Palmeiras, apelidado Biscuta. Ele assoprou nos meus ouvidos exatamente isso: “Paulinho, essa pessoa boa acaba de morrer instantes atrás”.
Naquela hora ingrata fiz-me de desentendido. Tentei entender outra coisa.
Por que logo ele? Bem que poderia ser outro. Ou eu ou um Zé Mané qualquer.
Hoje morreu exatamente quem não deveria.
Esse que nos deixou órfãos de sua pessoinha da prateleira de cima.
Jornalista especialista em esportes que tanta contribuição deixou à cultura de nossa cidade, penso, embora ele seja de maior idade.
Doeu-me muito a sua despedida, a sua prosa amena e entendida em distintos assuntos.
A sua fala que um dia me disse meio melancólico: “doutor Paulo Rodarte, sinto-me um estranho no ninho. Quase todos da minha idade já se foram. Só resta eu e minhas lembranças”.
No dia de hoje nos deixou rumo aos céus meu querido Fernandinho Prosinha.
Desculpe-me chamá-lo assim com muita intimidade.
O senhor merece um tratamento mais digno e respeitoso Fernando o grande lavrense que não deveria morrer, mas infelizmente aconteceu.

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