A indefinição do Zé Bodoque

Por que esse sobre esquisito. Podem me perguntar e eu respondo: “perguntem a ele. Ele sim assina Bodoque, não eu”.
Zé Bodoque, bem poderia ser estilingue. Aquela arminha que nós crianças usávamos na roça ou na cidade.
Feito numa forquilha de um galhinho de jabuticabeira ou outra madeira similar. De boa resistência e flexibilidade. Composto de um elástico resistente. Que fazia uma pedra ou caroço de mamona ser atirado à distância pouca. A fim de acertar no peito de uma rolinha ou outro passarinho comestível qualquer.
Como o menino Zezinho sabia fazer à perfeição esse tipo de arma menos letal que uma cartucheira calibre doze ou símile. Apelidaram-no Zé Bodoque ou estilingue ou coisa de igual valia.
O nome pegou Zé pelo pé. Mas de tanto chulé que ele tinha nos dois pés. Muitos que o conheciam passaram a chamá-lo de Zé Bodoque ao quadrado. De tão quadrado, certinho que era. Tipo de sujeito que leva tudo ao pé das letras embora seja muito pouco letrado.
Bodoquinho, ele era bem miudinho. Desde menino bobo, tolo mesmo, de tão trouxa faziam-no lavar uma enorme trouxa de roupa suja. Que elezinho botava no tanquinho. Enxaguava tudo direitinho até tirar todas manchinhas nodosas que maculavam a calça do Pedrinho.
Ele nasceu, espichou um cadinho. Numa rocinha herança do avô. Que a repassou ao pai do menino. Até que Zezinho a recebeu de mãos e pés beijados. E inté os dias de hoje mora lá sozinho dizendo ainda que Deus lhe faz companhia.
A idade que esse personagem de hoje conta não conto a vocês pois ele pediu sigilo.
Pelo seu jeito desajustado e muito desajeitado pra mim passa dos oitenta mais uns.
Se contar as rugas que lhe passarinham a face, que mais parece um campo fértil bem arado. Prontinho a receber, depois da chuva da semana passada sementes que delas nascerão pezinhos de milho ou arvorezinhas branquinhas de algodão.
Se for apresentado a sua boca desdentada. Diria sem atropelos que ele carece procurar urgente um dentista. Protético que seja, antes tarde que nunca. Já que a salvação de sua lavoura vai ser uma boa dentadura de grande duração e bem servir a sua tia.
Zé Estilingue, Bodoquento que seja feita a vontade dele .
Era um sujeito pra mais de indeciso.
Tanto que, sem saber se devia arrancar o dente siso. Na cadeira do dentista sofria mais que os outros. Gelava, suava de pingar pinga ruim.
E quando o boticão entrava na sua boca extraía outro dente. Justamente aquele que não era preciso- o siso.
A indecisão do Bodoque era de nascença, desde criancinha bobinha.
Aos dez aninhos, quando lhe pediam para assoprar as velinhas seu assopro era tão assombroso que inté assombração passava medo.
Era um indeciso de berço. Aos quase oitenta persistia nele a indecisão.
Na sua rocinha seus maiores amigos e admiradores eram em ordem não alfabética: Seu cão fila Clo. Uma cadela recém parida Bia. Mãezona, não puta de zona. Já que a lindona canzarrona da raça pura fila brasileira lhe foi dada por um sujeito de Macaia que amava cães dessa raça especial. Tida erroneamente como brava sem ser.
Tirante esses dois sobravam duas filhotinhas da Bia. Uma era pra ser dele. A outra a ser dada de graça a quem não se importasse com os muitos quilos de ração que as pestinhas comiam.
Dois lindos equinos faziam parte da sua coleção de amigos e admiradores confessos.
Dois maravilhosos cavalos pampa.
A égua de nome que só lhe trazia Felicidade, era esse seu nome.
E um macho eunuco, que não dava no coro, de nome Malhado.
A esse lindo plantel de amigos inserem-se três novilhas mestiças de cores semelhantes em preto e branco: noviça Vanessa, dona Edmea e a outra mais novinha. E mais brabinha Bárbara.
Amanhã, 25 de outubro, felizmente finada a eleição.
Ainda bem que não é nosso fim. Já que o próximo governo. Espero não ser mais um desgoverno como o que vai passar.
Zé Bodoque, mesmo sendo dispensado, por idade, lá vai idade.
Foi à cidade numa lotação lotada.
Andou a pé a sua secção eleitoral.
Sem ter levado no bolsinho da cueca uma colinha com o nome e número do seu candidato a presidente.
Não sabendo em quem votar e por que?
Nem a qual cargo daria descarga.
Naquela indecisão costumeira lembrou-se dos seus amigos da roça.
Se pudesse escolher entre eles seu candidato.
Quem sabe o cãodidato Clo, seu maior amigo, seu grudinho.
Fosse o melhor presidente da nossa nação.. .
Ou a pacata Bia, desconfiada, arredia. Fosse a tal primeira dama. Tomara não a Janja. Embora pensem que nosso amado Brasil seja uma granja de galinhas caipiras penso que não.
Caipira é gente da melhor espécie. Vão pra roça pro cês saber.
Bodoquento entrou na cabine de votação sem ação.
Numa indecisão danada.
E se ele votasse nas duas filhinhas da Bia?
Já disse que na Rosinha eu votaria. Sem indecisão nenhuma.
Na outra, que não é minha e vai ser dada.
Quem ficar com ela que vote nelazinha.
“E se eu votar, sem me revoltar, nas três novilhas descritas acima”?
Dentro da cabine de votação Zé perguntou ao mesário.
Ele nem respondeu, pois era proibido meter o bedelho onde não era chamado.
Dúvidas persistem. Zé Bodoque não sabia em quem votar. Nem no vinte e dois nem no treze. Treze não, pensou ele. Dá azar.
Deudas se dissiparam, tal e qual fumaça no ar.
O tempo mugia berrando dentro da urna.
Zé Bodoque foi advertido, muito divertido . Por ficar muito tempo no lugar da votação.
Foi inclusive motivo de gozação dos ficantes na fila.
Hora e meia sem saber a quem dar seu precioso voto,
A turma agitada do lado de fora da cabine ululava, não Lula.
“ Racha fora Zé! Faz mais de duas horas que tu não sai de perto da urna. Por que não entra no caixão e some debaixo da terra?”
Zé Bodoque saiu sorridente, mostrando a parte de cima onde moram suas gengivas rosadas. .
Gritando aos simpatizantes e os não.
“Felizmente não minto. Enfim, finalmente decidi em quem votar.Votei na minha égua de nome Felicidade. Quem sabe ela vai trazer alegria e felicidade a nossa nação. Bem melhor que a tristeza que estamos atravessando na nossa pinguela de nome Brasil”.

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