Vai? Num vai?

Nesse nheco sem eco vivia Zé Curiango.
Num dia igualzinho a essa madrugada de sexta-feira. Caía uma chuvica mansa de molhar bobo se não se fizesse ativo.
Zé, Curiango por não ter dado parte da mãe. Nem se lembra dela, já que quando ela o teve escafedeu-se nem se despedindo de Zé bebezinho.
Que a exemplo de uma ninhada recém nata de cães vadios. Nunca a cadela da mãe cuidou de dar mamá pra todos eles. Um nasce mais fraquinho e tem vida curtinha. Outrozinhos, mais espertinhos, não deixam para o infeliz nem uma teta a sugar faminto. Elezinho acaba fechando os olhinhos pra sempre. Sem ter chance de se dar bem na vida. Acaba sendo mais um cachorrinho infestado de carrapatos e pulgas. Vítima inocente da crueldade de gente que se diz humano. Mas essa qualidade passou bem distante, léguas de lonjura.
Naquela sexta-feira que deveria ser postergada ao esquecimento do olvido.
Chovia fininho. Uma barreira de barro fresco, misturada a xixi da vacada. Junto a fezes da bezerrada. Fazia das madrugadas do pode Zé Curiango um inferno de vida. Se aquilo que ele dizia se chamar vida pudesse ter esse lindo nome.
Zé, gente boa nata mais pura que nata de leite. Creme que se retira do leite puro tirado ao peito da vaca. Coisa que fica por cima do leite assim que, na geladeira seja fervido. Antes coado pra não deixar sujeiras dar caganeira em quem tomou.
Já havia passado e muito da hora da primeira ordenha da manhã.
A vacada mugia faminta à porteira do curral.
O céu escuro, um breu. Nenhuminha estrelinha para servir de lamparina para clarear o ambiente.
Naquele instante solene Zé teve uma feliz ideia.
Naquela horinha passou avoando um casal de pirilampos.
Eles pousaram de cansaço de tanto avoar num galho quebra galho de uma velha jabuticabeira na beira da cerca de madeira do curral.
Zé se apressou e pegou, com suas mãos em concha, suavemente o casal de vagalumes piscantes.
Uma era a vaga luma, mais bonita e gostosa que a Luma de Oliveira nos seus tempos de glória ao lado de seu marido Eike.
O outro pensou Zé, que seria o macho. Já que bem submisso se mostrava a sua parceira pirilampa.
Com o que pensava ser um casal preso na mão Curiango conseguiu iluminar a sala onde tirava leite de suas vacas mestiças e outras de mais pedigree leiteiro.
Era essa a rotina pra mais que enfadonha na vida do Zé Curiango.
Acordar bem cedinho antes que o galo cantasse e as galinhas desempoleirassem daquele poleiro mais sujo que pau de galinheiro sujismundo.
Ir ao curral, faça sol ou deita chuva.
Tirar aquele leite branquinho mesmo sem saber a razão de o leite ser branco saído de uma vaca preta.
Apartar bezerrinhos sempre famintos. Não apenas de afeto assim como de raiva por tê-los retirado à força do peito de sua mãe vaca (se alguém quiser te xingar e te chamar de vaca não fique nervoso nem bravo. Pra mim nada mais abonador que ser chamado desse nome feminino. Se queres insultar alguém chame-o de capivara ou micuim). Aí sim, a pessoa pode se sentir ofendida.
Zé Curiango não tinha descanso. De domingo a outro era a mesma ladainha.
A única privação que lhe causava pena era viver só na própria companhia.
Até que estava se acostumando a viver sozinho.
Já foi casado de papel amassado.
Sua mulher esposa concubina não suportou seu mau humor e o mau cheiro da latrina que era usada como privada.
Sumiu no pasto antes de lhe dar filhos.
Aquela não era Amélia nem Amelinha uma mulher de verdade.
Era um arremedo medrosa de tudo que lhe passava pelo mau caminho.
Desde quando ela o deixou a ver as paredes do seu quarto Zé, sentindo-se desolado, infeliz, pensou em dar cabo. Não da enxada nem da enxurrada. Sim de sua vidinha insossa.
Até se dependurou num galho mais fino de jabuticabeira. Subiu num banquinho capenga, manco das quatro patas. Passou uma cordinha fina no seu pescoço grosso. Por sorte dele, ou seria azar de alguém. Não teve sucesso em suicidar. O banquinho, por ser velho e gasto. Deitou Zé no chão macio cheiinho de jabuticabinhas madurinhas. A cordinha não entrou em acórdão com os poucos quilos do Zé. Arrebentando antes que ele fosse ao chão.
Até que Zé, Curiango desperta curiosidade nos que lêem esse nome esquisito. Parece coisa de pessoas aflitas.
Já que tinha uma paixãozinha por sua égua pampa.
Aquelazinha que, quando Zé a levava a fazer amor em riba de um cupinzeiro morto.
Ela levantava o rabicó tosado num dia quando seu rabo enroscou numa moita de bambu.
Quando Zé estava num bem bão, prestes a ter um orgasmo; um só. Não era capaz de dar bis.
Leréia, era esse o nome da sua égua. Baixinha e de crina grandona rebolando até o chão.
Deu-lhe um coice na zona do agrião que o deixou estropiado sem sequer poder piar.
Mesmo assim Zé sempre dizia aos seus compadres e enchia a boca desdentada ao ver sua Leréia relinchar.
“Como amo ela. Bem mió qui moela de galinha cozida bem temperada”.
Concordo, mesmo sem corda, com o que disse Zé.
Mas mesmo amando sua égua, mesmo não sendo fio de uma.
Zé queria juntar sua solidão a uma mulher de muita carne e pouco osso.
Foi quando lhe pediu pouso, à porta de sua casinha rústica.
Um belo par de pernas, um traseiro maior que a lua quando cheia. Uma cara que não era essas coisas de formosura. Pelos ditos populares aquela fêmea poderia se chamar Raimunda. Que de fato era.
Viúva de fresco, fresca ela não era. De uma quentura de frigir ovos no asfalto mesmo de noite alta.
Zé fez de tudo para conquistá-la.
Dava flores, bombons, brigadeiros e não brigada com a cadela.
A tal dama, que nem era bispa de jogo de xadrez, nem rainha ou rei.
Fazia-se de difícil embora fosse prenda fácil de levar à cama.
Era igualzinha ao dia de hoje. Um chove e molha muito se ficar na chuva.
Um mês e nadica de nadinha, mesmo cantando a dona.
Prometendo, de pés juntos na sepultura.
Um ano, dois ou mais, ajuntar as cobertas com a tal zinha.
Elazinha se dizia pudica, virginal não no signo. Mais embaixo debaixo do seu umbigo herniado.
Quando, já bem desanimado em levar a não mais moça a dormir com ele.
Dormir em termos. Fazer amor soa melhor.
Isso saiu da boca escancarada do meu amigo Zé Curiango.
“Vai? Num vai não”?
Ela num foi e Zé Curiango ficou com sua égua Leréia.

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