O amor late mais alto

Amores existem de todas as cores.

Aquele amor desbotado que pertence ao passado.

Outro amor de cor fugidia que deixamos a nossa querida tia. Aquela pessoinha que a nós, ainda meninos, dava balas, bombons e outras guloseimas que estragavam nossos dentinhos de leite que em pouco tempo caíam e eram substituídos por dentes definitivos.

Amor de padaria entre dois jovenzinhos imaturos e imberbes que na padaria trocavam beijinhos inocentes na face e ela dizia a elezinho: “você é um pão fresquinho recém saído do forno. E ele retribuía ao carinho demonstrado por elazinha em outro dito: “ocezinha é a tampinha da minha panela onde faço deliciosas comidinhas. Tomara continuemos assim mesmo entre afagos e carícias. E no tardar dos anos não iremos mudar nossa vida tão amistosa carinhosa como alguns casais entre tapas e xingos que podem terminar mal no banco dos réus”.

E aquele amor de cor amarela ouro que de tanto batear naquele corguinho a procura de pepitas de ouro purinho acaba virando areia que se desfaz na peneira furada dos anos.

Amor de carnaval tem pra mim a cor verde pastaria onde vacas pastejam bucólicas. De começo nos bailes de salão num clube do centro da cidade.  E termina da cor de vômitos vomitados na sala da casa da mocinha sob olhares nojentos dos pais delazinha.

Amor maduro tem a cor de manga madurinha quase podrinha. E, se chupada misturada a leite de vaca da um piriri fedido. Acompanhado de gases e dor de barriga inchada.

Amor inocente entre criancinhas que brincam de médico e paciente.  Assim que o doutorzinho pede a menininha purinha que tire a roupinha para examinar-lhe a garganta e diga A de boca bem aberta acontece que elazinha inocentinha mal sabe as verdadeiras intenções maquiavélicas do pseudo doutorzinho de olhinhos abertos na cor da sua calcinha posta no tampo da cadeira daquele consultório improvisado no quartinho do menininho esperto.

No entanto dos entre tantos  amor descompromissado em qualquer troca, amor esse pra mim incondicional. Como demonstram os cães nossos maiores amigos, fiéis e devotados que são.

Já os tive e ainda os tenho em verdadeira devoção.

Bem no começo me lembro daquele cãozinho pretinho peludinho de nome Rebel.

Eu criança, ele um viralatinha já bem andado em quatro patas.

Foi elezinho que me defendeu naquela rua, a Costa Pereira de tantas recordações infantis, das mordidas doloridas de outro cão o dobro do seu tamanho pequenino. Rebel apareceu todo arranhado e ferido na porta da minha morada e não resistiu aos ferimentos e subiu aos céus sem latir nem um cadinho.

O serelepe Willie foi outro cãozinho peludinho que latia em outra casa que construí num local um cadinho distante daquela onde cresci. E como elezinho não tomava jeito. Aquele machinho, na intenção de marcar território levantava as patinhas de trás e urinava no pé do sofá novinho da enorme sala de visitas que minha mulher  amava com uma paixão extremada. Um feio dia Willie viralatou de vez pra sempre. Nunca mais o encontramos. Elezinho, um yorkshire de bom pedigree purinho escolheu pro seu destino ser um vira lata cavoucando sacos de lixo pelas ruas.

Não me esqueço do Paulo Rosa. Um inteligente cão da raça Border Collie acostumado ao pastoreio tanto de ovelhas ou ruminantes. Que tinha um mau costume de comer galinhas soltas no quintal da minha rocinha antes prejuizenta. O qual, quando deixava a minha roça de volta pra cidade, Paulo Rosa tinha de ser preso à porta da casa amarelazul cenário do meu romance Madest. Num dia infausto ocorrido dei falta do meu amigo tinto em preto e branco. Até hoje não sei pra onde foi levado aquele Paulo. Se ele pastoreia vacas no céu ou ainda come galinhas numa outra rocinha qualquer.

Outro cão fiel e devotado, um pastor que não sei se sabia falar alemão como eu, num dia desapareceu do seu canil. Revirei céus e terra atrás do seu rastro e nada de encontrá-lo. Até aquele triste dia que me informaram ter visto um cão morto debaixo de uma palhada de cana bem perto de onde ele morava.

Não me arrependo de ter tido incontáveis cães. Se por ventura de uma desventura perder esses dois vou me fazer acompanhar de mais deles.

Clo, um fila bem brasileiro de uma boca enorme cheinha de dentes pontiagudos e aguçados. E o artioso Robson o pretinho corredor atrás de tudo e mais um cadinho.

Vivem numa convivência nada amistosa bem acima da minha casa escrita Solar Paulo da Rosa.

Eles vivem confinados num canil sempre limpinho pelo meu amigo caseiro Tom Zé.

Clo é minha sombra e meu grude. Quando os solto caminhamos lado a lado.

Já o pretinho Robson nem se da com minha pessoa.  Corre desembestado a frente incomodando meus cavalos pampas.

E como eles têm ciúmes meus.

Quando estou por ali eles se engalfinham em brigas duras. Latem um com o outro. O educado Clo, com sua bocona grandona finge morder a cabeça do Robson. Já o serelepe pretinho chora não de dor e sim de ciúmes de mim.

Na semana passada pernoitamos ali pertinho de onde fingiam dormir Clo e Robson.

Ao acordar bem cedinho no meu quarto, que tem uma sacadinha de onde se permite ver o canil morada dos daqueles dois amigos canídeos pude ver o Clo assentadinho de cócoras olhando na minha direção. Com aquele jeitinho desconsolado a me olhar carinhosamente. O fogoso Robson ainda dormia um soninho gostoso.

Passamos uma noite linda e sossegada. Não se ouvia nadica de nada nem um latido ou zumbido sequer.

Quando Clo deu por mim a olhar na sua direção ele latiu alto e em bom tom.

Foi aí que Robson acordou de vez e latiu em outro tom mais baixo.

Clo latia cada vez mais alto enquanto o outro cão pretinho ladrava mais baixinho.

Foi naquela madrugada passada na minha casa beira lago que pude deduzir assim.

“O amor, quando é forte demais e passa dos limites late mais alto ( caso do meu amigo Clo).  E quando outro amor é mais fraco e débil, no caso do meu cão Robson, o ladrar se torna bem mais baixo”.

 

 

 

 

 

 

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