Entre pensar e sonhar reside uma grande diferença.
Pensar se pensa acordado. Sonhar sonha-se em pleno sono.
Pensar muito machuca. Sonhar sonhos bons nos eleva os pensamentos.
Os grandes problemas amontoam-se durante a noite. Já que eles não escapam do nosso pensamento. Daí a minha ojeriza pelas noites. Da mesma maneira amo as madrugadas. A escuridão me intimida. O clarume do sol faz-me sentir vivo.
Naquela noite escura Toninho acordou de hora em hora. Mal pregou os olhos. E que semana pesada felizmente se despediu no último domingo.
Pepinos acasalavam-se as beterrabas. Cenouras andavam agarradinhas as mandiocas enterradas na terra macia.
Era problema pedindo trégua ao outro. Cada um mais cabeludo que carneiro sem tosquiar.
Ora era a chuva que não caia na hora de mais precisão. Ora era o excesso que fazia encharcar a terra na hora do plantio.
Toninho vivia da renda de um leitinho minguado. Uma dezena de vacas mugiam de fome bem cedinho à porta do curral. Não carece dizer que todo inverno cheira a frio. E a seca faz esturricar a pastaria. E, se não bastasse tantos pepinos a silagem de milho azedou naquele ano. A vacada magricela mostrava as costelas de fome. Não havia mais nadica de nada para encher os cochos quase sempre vazios.
Toninho se viu em dificuldades. Naquele mês de julho, ainda em seu começo, a terra ressequida cuspia poeira. Faltava coragem para atravessar o ano em sua metade.
Não bastasse tanta penúria Toninho devia ao banco uma bagatela de dez mil reais. Quantia irreal dada as suas ínfimas possibilidades.
Toninho passou mais uma noite em claro mesmo na escuridão reinante. Não que fizesse frio. Do lado de fora da janela uma camada de gelo fino cobria a grama que soltava fumaça. Embora não fumasse.
Como de costume acordou, sem ter dormido, lá pelas bandas das quatro da madruga. Pensamentos ruins passavam pela sua cabecinha cheia de problemas.
Como pagar ao banco? Perguntava-se. Como alimentar as vacas? Lotavam sua cachola de dúvidas.
Mesmo assim, cheio de pendengas, partiu rumo à lida. De antemão já sabia que o novo dia seria um balde inteiro cheio de indefinições e desavenças.
Toninho não era de se queixar. Era um caboclo tinhoso e resignado. Pra ele não tinha tempo ruim ou menos pior. Acostumado à lida no campo, as mudanças de tempo. Ora fazia calor ora esfriava de repente. Não havia quem não pegasse uma gripinha indigesta. E fosse jogado na cama quando mais carecia de trabalhar.
Naquele dia de frio intenso saiu de casa bem cedinho. Sem sequer tomar um cafezinho chegou ao curral tiritando de frio. Fazia tanto frio que viu uma das suas vaquinhas, a Braúna, enrolada num cobertor.
Ordenha finda, leite no latão, cheio pelas bocas, lá se foi ele rumo ao chiqueiro.
Deu com uma porca parida estendida no chão. Os quinze leitõezinhos famintos sugando as tetas de onde não saia leite. Foi preciso alimentá-los um a um com leite tirado inda pouquinho das vacas. Ainda bem que os leitões não estranharam o sabor adocicado daquele leite distinto de sua mãe porca.
Mais um pepino Toninho teve de engolir. Faltou luz na propriedade. Não precisa dizer que o leite mais uma vez azedou. E nem queijo pôde fazer. Naquele dia indigesto toda a produção leiteira virou lavagem a dar aos porcos. Que porcariada!
Enfim o céu escureceu. O dia virou noite. Mais uma noite insone. Das tantas que estava acostumado a passar em branco.
No pé do fogão a lenha fungava, sem fumar, um balaio usado com múltiplas funções. Era uma cesta herança de sua avó Mariquinha. Utensílio de estimação.
Toninho, avesso a assistir televisão. Olhava para o balaio. Como olhos recheados de admiração com uma pitadinha de inveja.
Pensando com ele mesmo, em voz alta.
“Como gostaria de ser como você. Não tem de trabalhar. Não tens contas a pagar. Fica quietinho no seu canto. Talvez escute o meu desencanto. Tem mil e uma serventias. Foi feito de lascas de bambu. Há tanto tempo que nem me lembro mais. E quando preciso tomo você pela alça e te levo comigo à feira. Lá te encho de verduras e quem paga sou eu. E como te invejo meu amigo balaio. Não sentes dor nem tens de dormir. Se eu pudesse ter nascido num bambuzal que bom seria se fosse seu irmão. Seria entrelaçado a outros iguais formando um novo balaio como você”.
E num é que no dia seguinte Toninho acordou um balainho igualzinho aqueloutro?
Acreditem se quiserem. Eu num minto e nem invento.
Apenas e tão somente crio coisas pra gente descrente acreditar.