Acreditar no impossível sempre o tive dentro das minhas possibilidades.
Sonhar sempre foi uma das minhas maiores virtudes além de ter sido estudioso e bom aluno quando em menino frequentava a escola.
A princípio, até acredito aos meus cinco aninhos. Assim que dezembro mostrava ser o final do ano, duas datas próximas me apoquentavam. No dia sete assoprava mais uma velinha. Véspera do dia vinte e quatro a vinte cinco esperava ansiosamente a visita do Bom Velhinho, também conhecido por Papai Noel. Naqueles idos anos acreditava piamente que Papai Noel de verdade vinha do pólo norte, num trenó puxado por renas aladas, numa distância infinita e nem tinha aviões para trazê-lo de tão longe. E que elezinho, por ser um tanto gorducho, depois de deixar suas renas estacionadas num estacionamento todo gramado a pastejarem uma grama coberta de neve por ser inverno. Aquele senhor que trazia presentes num saco preto enorme, ao entrar pela chaminé ficava entalado naquele canudo estreito. E tinha de ser retirado daquele conduto por uma equipe de bombeiros que não tinha descanso nem no Natal.
Eu era um menino crédulo inocente e purinho como sal recém retirado de uma salina branquinha numa prainha nas barbas de um mar tranquilo.
Parecia-me a um garoto que se chamava Juninho.
Esse menino Juninho vivia desassossegado ao caminhar solitário pelas ruas de sua cidade.
Elezinho tinha o costume de acordar bem cedinho. Dormia num quarto um dos cinco que em sua casa enorme existia. Por sorte dele era um garoto nascido numa família de posses.
Filho único de pais que o amavam acima de qualquer coisa.
Nas suas andanças pela cidade Juninho, garoto observador e curioso, não tirava seus olhinhos atentos de tudo que via nos arredores.
Cenas como essas o incomodavam.
Pessoas dormiam ao relento naquele frio invernal parcamente enrolados em panos surrados debaixo de marquises, sob pontes ou viadutos. A maioria com fome e sentindo frio.
Juninho inquietava-se com a miséria dominante. A ele por sorte não faltava nada.
Mas, por ser uma criança de rara sensibilidade a situação dos moradores de rua a ele incomodava sentindo na pele fina e branquinha um prurido pra ele resultado de uma pena que sentia dos menos aquinhoados pela sorte.
Juninho voltava a casa, entrava no seu quarto que só ele usava, fazia as lições de casa, comia qualquer coisa, fazia a sua oração costumeira pedindo ao papai do céu que não deixasse pessoas pobres ao desalento. Que Ele desse sustento aos pais de família desempregados. Que não faltasse pão na mesa dos trabalhadores. E, quando a noite mostrasse no alto as estrelas em companhia da lua, Juninho fechava seus olhinhos, fazia uma breve oração, e dormia sossegadinho com sua mãozinha direita debaixo de um travesseirinho vermelhinho de sua predileção.
Juninho não desviava os pensamentos lamentando-se profundamente da situação dos meninos que dormiam nas ruas e, se não bastasse tamanho sofrimento alguns eram viciados em cheirar cola de sapateiro um pulo certeiro a drogas maiores de nome crack.
Sempre chegava a casa pontualmente quando o relógio da igreja matriz assinalava dezoito. Era a hora do Angeluz quando se ouvia a Ave Maria de Gounod.
Recolhia-se ao seu quarto, fazia as lições, lia pra ele mesmo a redação de português escrita horas antes, e de novo dormia até as seis da manhã do dia seguinte.
Foi ontem que ele, ao ver a sua mãe entretida em suas orações, lendo a Bíblia num versículo pro Juninho bem conhecido. Ainda bastante apoquentado com a penúria da miséria que via pelas ruas. Depois de escutar, na escola, a hora do recreio, ouvindo da boquinha abatonzada de uma coleguinha linda por quem teve um chameguinho tempos antes, pensando que elazinha o havia esquecido. E elazinha deixou escrito num papelzinho que em verdade era um lencinho de papel rosado. Essas palavrinhas escritas em tinta usada e retirada em forma de coraçãozinho do próprio batom vermelho: “não te esqueci não Juninho. Você ainda mora no meu coração”.
Esse meninozinho esperto, obediente aos pais e aos mais velhos, bom aluno e dedicado aos outros. Trazendo aquele papelzinho escrito em letras miúdas com aqueles dizeres escritos antes assim: “não te esqueci não Juninho. Você ainda mora no meu coração”.
Juninho, mostrando estar bastante preocupado com um menino que um dia desses viu, de pés descalços, faminto a morder um naco de pão amanhecido, duro e encardido. Morando num cubículo infecto numa construção em ruínas.
De volta ao seu quarto gigante e muito confortável. A sua amada mãe perguntou: “mãezinha. É possível alguém, que mora nas ruas, passa fome, sente frio e não tem onde morar, passar a morar dentro de um coração? Se for de fato possível vou oferecer àquele menino que um dia vi morando nas ruas, dormindo ao relento, tomando banho numa fonte luminosa num frio de enregelar pinguins, dizendo a ele que o meu coração tem quatro quartos de razoável espaço: dois átrios em cima e dois ventrículos em baixo. E esse menino pode ocupar sozinho meu coraçãozinho. Disponível por inteiro. Melhor que morar na rua. Não é minha querida mãe”?
Descarece dizer qual foi a resposta da mãe do Juninho.
“É possível sim meu amado filho. Dentro do seu chorãozinho generoso cabe o mundo inteirinho”.