Como a memória nos atraiçoa quando a senilitude chega.
O velho se lembra principalmente de fatos do passado.
Com quem se casou nos verdes anos. Qual o nome daquela velhinha que morreu no ano passado. De que cor era o terno com que se casou.
Mas, fica difícil recordar o que comeu no dia de ontem. Se foi uma feijoada apimentada que lhe caiu mal no estômago. Ou aquele torresmo duro que acabou quebrando a sua dentadura.
A velhice tem suas regalias. Deveria ter milhares delas. Afinal, quem já passou a vida quase inteira no trabalho. Sujeito a um salário de fome. Quem já teve de se sujeitar as vontades do patrão. Deveria ter um tratamento especial. Não apenas e tão somentemente ter uma fila única para os de mais idade. Ser isento de pagar condução. Ou, na contramão das desilusões. O velho deveria ter direito a não pagar despesas de funeral. Ter um caixão branquinho como se fosse um anjinho a caminho do céu.
Ser velho não é viver no paraíso. Já que as doenças naquela idade são vistas pelo médico como de maior gravidade. O velho quando se queixa podes crer nos seus queixumes. Ele não é de inventar doenças. E elas quando nele se aboletam se torna quase impossível nos livramos delas.
Não se pode contestar nem ao menos postergar a velhice. E ela chega. Pra uns mais tardiamente. Pra outros mais prematuramente.
Tenho um amigo. De uns anos a mais da minha idade. Cujo nome anda meio esquecido. De vez em quando o chamam de Bento. Mas de verdade ele foi batizado como Juvêncio.
De tempos pra cá ele quase não se lembra de nadica de nadinha.
Sai à rua de cueca samba canção. Sem nada por cima a esconder seu peito desnudo. Por baixo nada tem a esconder. Já que aquilo que antes tinha muita serventia agora não presta nem para urinar.
Seu Bento já foi casado e amasiado. Agora tenta e retenta arrumar uma nova namorada.
E fica dando sopa na pracinha do jeitim que veio ao mundo.
Um dia foi levado à delegacia. Foi solto no mesmo dia. Estava vestido sem nada. Pelado com a mão no bolso. Perdoaram-lhe a ofensa dada a sua idade avançada. Desde que não repetisse a cena. E se vestisse com maior decoro.
A partir de então seu Bento mudou pra melhor. Vestido na sua melhor fatiota. Na mesma praça no mesmo banco. Ali passou horas e minutos olhando as mocinhas casadoiras passeando no rela do jardim.
Por uma delas se encantou. Era uma balzaquiana já passada da idade. Mas ainda em ponto dar uns amassos.
Seu Bento, meio esquecido de como se fazia a corte. A ela lançou olhares gulosos. Não disse nada. Apenas, numa volta derradeira que a moça dava, pediu a ela o número do celular. E ele nem tinha esse aparelhinho andejo.
Mas por sorte, ou seria azar, a mulher acabou rabiscando numa folha de jornal um número meio complicado. Quase impossível de se ler.
Bento, não satisfeito com aquilo, aproximou-se dela. Meio sem gracinha acabou se declarando: “olha moça. Não sou de me engraçar com ninguém. Mas confesso que me encantei com você. Sou viúvo. Vivo solitário numa bela casa. Preciso de companhia. Tenho uma renda que da pra viver com folga por muitos anos mais. Você não quer ser minha namorada”?
A moça, que não era mais moça. Mulher experimentada na vida, passando por necessidades. Acabou aceitando o convite para viver com ele na sua casa.
A primeira noite passada juntos foi uma temeridade. Não houve como empinar a pipa. A coisa não subiu nem com reza mansa.
Seu Bento, desiludido da vida, depois de mil tentativas malogradas tentando e rebentando fazer sexo. Aconselhado por mim mesmo foi a uma farmácia.
Sem saber qual remedinho iria comprar. Ou de qual doença tratar. A memória não ia nada bem.
Quando o balconista a ele perguntou se era um tal comprimidinho azul. Que promete alavancar defuntos.
Seu Bento, ainda em dúvidas o que seria. Se era pra melhorar dor de cabeça ou inchaço no pé.
Tendo em mãos aquele remedinho de cor azulada. Mal se lembrando das tentativas malogradas de empinar o pinto. Deixou a farmácia sem comprar nadica de nada.
Ontem ele passou por mim. Dizendo que a tal mulher escafedeu-se de sua vida pra sempre.
Eu não quis dizer ao meu amigo pra que servia aquele remédio. Deixei meu amigo Bento entregue ao esquecimento.