” O que você faz?”

Pergunta um tanto impertinente que nos fazem a cada dia.

Pra mim deveria ser quem você é. Já que as pessoas deveriam ser o que elas são não o que elas fazem. Essa troca de identidade me tem feito pensar.

A gente vale pelo que faz ou por quem a gente é?

Se fossemos gente que nada faz iríamos perder o valor? Um singelo morador de rua. Que nunca fez nada na vida. Por falta de oportunidade. De não ter nascido em berço igual ao nosso. Felizmente somos bem nascidos. Aquinhoados pela sorte de termos estudado. Ou a mercê de um bom emprego somos felizes de assim o sermos.

Se não faço nada não tenho direito a ser quem eu sou. Perco a vontade de ser alguém na vida.  Paro no meio do caminho sem ir adiante. Indiferente ao sucesso com que tanto sonhamos.

Ser ou não ser. Eis a questão.  Se não sou não me encontro. Se nada faço acabam pensando que não sou eu.

Nessa altura do campeonato. Sem jogar futebol. Faço, nos dias de hoje. Apenas e tão somente o que me apraz. Se não aprecio não faço. E nem por isso penso não ser alguém.

Sou refém das minhas vontades. Se não escrevo não vivo. Ah! O que seria de mim se não tivesse o costume de escrever.  Seria um médico em final de carreira. Que aqui se encontra retratando tudo aquilo que me vai por dentro. Como uma maneira de por pra fora todas as minhas angústias e sentimentos. Sem guardar ressentimentos de nenhures. Bom deixar escrito.

Não faço nada que me cause mal estar. Se não me exercito, tanto na escrita quando no caminhar sempre. Indo e vindo de aqui da minha oficina de trabalho até onde minha vista descansa. Não mereço continuar a viver.

Penso que todas as pessoas valem pelo que são e não pelo que fazem. Se não fazem nada nada valerão?

O dia em que nada mais fazer não serei eu? Irei perder a identidade? Não serei mais cidadão brasileiro? Sofredor pelas desigualdades tantas que vejo por aqui?

O que irei fazer de hoje a alguns anos quando me aposentar por completo? Seria em verdade o ócio o começo do fim?

Acredito ter sido num dia passado, quando me encontrei com um velho amigo. O qual não via desde há muito tempo. Parede que fomos colegas no curso primário. Tínhamos a mesma professora. Aprendemos juntos as primeiras letras. E nunca mais nos vimos até aquele dia.

Paramos na mesma rua. Num dia de muito movimento. Seu nome é Eugênio. O meu continua a ser Paulo. Creio termos a mesma idade. Setenta e cinco mais.

A nossa prosa foi curta. Como curta deveria ser a vida daqueles enfermos terminais.

Foi ele quem puxou conversa: “Paulinho. Há quanto tempo não o vejo. Continua praticando tênis? Ainda é médico ou já encerrou a carreira? Somos daquela turma do Gammon dos anos idos de um mil e antigamente? Se bem me lembro você foi pra Belo Horizonte para estudar medicina. E voltou à Lavras em meados de um mil novecentos e setenta e sete. Acredito ainda que já me consultei com você. Foi exatamente no começo de sua carreira. Tenho boa memória.”

A nossa prosa terminou do jeito que começou. Com ele falando mais do que eu ouvindo.

Esse meu amigo, há muito esquecido. Felizmente não faz distinção entre aquele que eu sou ou aquilo que eu continuo fazendo. O que eu faço se confunde com aquele que eu sou. Não faço distinção entre minhas duas caras metades.

 

 

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