Dona Maria, Seu Eusébio, e seus quatro filhos, já viviam à margem da pobreza.
Eram trabalhadores como outros quaisquer. Que se viram de repente desempregados. Depois da tal pandemia perderam o emprego. E se viram em enormes dificuldades.
Se a coisa já estava ruim antes de serem demitidos imagine agora. Eram agraciados com o salário mínimo. Com mais quatro bocas a sustentar.
Moravam num bairro de periferia. Numa casinha alugada. Para chegarem ao trabalho precisavam tomar três conduções. Aquele salário minguado mal dava para as despesas iniciais.
Ao chegar à metade do mês o dinheiro naufragava em águas salobras. Os quatro filhos menores iam à escola. Ali tinham a merenda. E graças a ela não passavam fome.
De repente instalou-se pelo país inteiro a tal doença maldita. Medidas intempestivas foram tomadas na intenção de amenizar o caos que se formara.
Hospitais lotados. Pessoas morriam sem a assistência devida. Filas enormes se formavam a porta dos bancos. Ajuntamentos condenados eram vistos pelas ruas.
A família do Seu Eusébio não tinha outra forma de renda. A esmola do governo não veio na hora certa. Daí a situação aflitiva que de repente foram jogados. Despensa vazia. Nada na geladeira a não ser a um monte de gelo que se formava.
Os quatro filhos, sem irem à escola, estudavam em casa com a barriga roncando de fome.
Tudo estava fechado. Sem indícios de mudar o estado de coisas.
Era mês de abril. Mortes eram anunciadas pela televisão. A mídia não falava noutra coisa. Parecia que outras doenças deixaram de existir.
O mundo girava em torno da tal pandemia. E aqui, no Brasil, a situação fugia do controle. Mais e mais óbitos eram anunciados pela televisão. Covas eram abertas. Cemitérios eram entulhados de corpos sem identificação.
Foi quando encontrei Seu Eusébio e dona Maria numa encruzilhada da cidade. Eles esmolavam a porta de um banco. Olhos fundos. Pele macilenta. Mãos estendidas em busca de alguma doação.
Não tive como não me condoer pela situação aflitiva do pobre casal. Por eles soube das agruras por que passavam. Do desemprego que se instalara em suas vidas antes produtivas. Da miséria por que passavam.
Parei um instante junto deles. E escutei um cadinho das suas histórias.
Fui informado da falta de alimentos. Dos filhos que em casa passavam fome.
Soube ainda que a esmola prometida pelo governo não lhes foi aquinhoada.
Eles não estavam naquela lista enorme dos agraciados com os tais míseros seiscentos reais.
Não eram ambulantes. Muito menos merecedores da bolsa família.
Dai a situação aflitiva por que passavam.
Naqueles breves minutos de nossa conversa, foi da boca da dona Maria que ouvi esta exclamação que me fez pensar: “doutor: pior do que esta doença é a fome”.
Não é a hora de começar a trabalhar?