Que dia ele escolheu para morrer…

Sempre o via assentado aquele banco de pedra ao cair da tarde.

Sempre troçando com a gente.

Alegre, sorridente, Seu Zé da Dona Glória era a felicidade em pessoa.

Nunca o vi ressabiado.

No alto dos seus muitos anos era a saúde em forma de gente.

Acostumado ao trabalho duro da roça, mãos caludas, tez tostada pelo sol, cabelos ainda escuros com fiapos de branco a mancharem-lhe as têmporas, meu amigo nunca se mostrou arrependido daquela vidinha singela. Ao revés. Quando o interpelava, naquelas tardes frescas, ele sempre me respondia, com seu sorriso brejeiro: “quer saber? Quem mora aqui nunca envelhece. Graças aos ares campestres. E a paz que reina por estas paragens rústicas”.

Não tinha como duvidar das suas sábias palavras. E voltava a cidade pensando em me mudar para aquele lugar paradisíaco.

Mas a vida continuava em seu ritmo frenético. Apesar da idade, de ser considerado idoso, ainda não era hora de me aposentar totalmente.

O trabalho me consumia. Quase como dantes. Embora em intensidade menor ainda exercesse a medicina em menor escala.

Eis que chegou o mês de abril. A tal pandemia fazia com que ficássemos confinados dentro de casa. A crise mostrava os dentes raivosos. No entanto, naquela quarta-feira, depois de um feriado, dia lindo, rico em sol, foi-nos assinalada uma certa abertura nas atividades diárias. O comércio poderia abrir as portas com restrições.

Finalmente pensei. Com meus pensamentos que vagueiam conturbados naqueles dias cheios de indecisões.

Passei o dia pensando no meu amigo da roça. Como estaria ele? Há tempos que não o via.

Nesta hora cedo Seu Zé deveria estar no curral. Ou carpindo a roça de milho. Era tempo de encher os silos. De prover o alimento das vacas durante a entressafra.

Um mês se passou. Não tive tempo de voltar a minha propriedade. Que dividia os pastos com o amigo Zé.

Dois meses se foram. Para mim uma eternidade.

Naquela manhã de sábado acordei bem cedo.

Tomei minha caminhonetinha prateada. Em menos de meia hora passei por aquele banco de pedra dura. Onde quase sempre passava pelo amigo Zé.

Era um dia lindo. Rico em sol. Céu manchado de azul piscina.

Na parte da tarde, antes das cinco, ao voltar pelo mesmo caminho, não me deparei com a figura buliçosa do velho amigo.

Onde estaria ele? Será que já estaria dormindo?

Não resisti. Adentrei porteira adentro. Deixei minha caminhonetinha estacionada perto.

Cães ladraram.

Naquela varanda tinta em vermelho encontrei seu filho Cláudio. Ele estava amuado. Triste na exata extensão da palavra.

Naquele exato momento tive um mau pressentimento.

Onde estaria o meu amigo Zé?

Foi quando soube da infausta notícia. Zé da Dona Glória havia partido rumo ao céu uma semana atrás. Foi vitimado pela tal pandemia. Veio a falecer ali mesmo. Assentado aquele banco de pedra dura. Sem ao menos se despedir de mim.

Que dia ele elegeu para morrer… Tomara, quando isso tiver de acontecer, que seja num dia como o de hoje. Céu azul. Nenhuma nuvem a tapar a boca do sol. Numa manhã de outono. Como esta.

Quem sabe há de ser assim…

 

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